Sabemos todos que muitas vezes a história é esquecida com uma rapidez galopante, e sabemos, também, que na atualidade se pode mentir descaradamente sem que existam consequências, estas são sobretudo nulas para quem gere o grande poder, ter dinheiro, frequentar igrejas, andar bem vestido foi desde sempre garantia de pessoa de bem.
Existe agora um novo requinte audaz e maléfico, realizado à vista de todos, imaginado e pensado para as multidões de seguidores, feito para ser coroado de palmas e sorrisos perfeitos, como se a maldade aprumada fosse coisa certa, de tal modo que tudo é elevado à exaustão, como aquelas músicas que passam a toda a hora na rádio, tanto e tantas vezes que depois até passamos a gostar. A dessecação do que não é correto, torna-se depois, numa maré de verdades obscuras, alimentando desalmadamente um limbo de interesses vorazes, desaguando num cortejo fúnebre de estrelas da moda, da economia, da realeza, da filosofia, da politica e do raio que os parta a todos. Gente que não vale um chavelho, mas por serem tantos e com demasiado dinheiro, são como um imenso polvo que se transforma a cada acusação, pressionando através de cada tentáculo, para o disfarce final.
Há um inércia coletiva, quase hipnótica, na forma como vivemos atualmente. No auge, esperamos serenamente que os obstáculos sejam transpostos por anjos, invocando-se Deus na Paz podre destes dias.
Há, também, um crescente calar consentido, nesta visão coletiva e distorcida dos factos, na forma brutal com que se ridiculariza hoje a Paz, feita por esta gente sem escrúpulos, ençaimados de sorrisos ligeiros, filosofando que a culpa é tua, se ela não se manifestar.
Tudo isto não é nada de novo, o que é novo é a forma como se aceita esta realidade, e o novo conceito de designação de Paz, nos chamados valores “humanos”.
" Olhe, camarada: quanto ao exercício da nossa profissão, somos obrigadas, por vezes, a levantarmo-nos da nossa cama a qualquer hora da noite, isto é, quando ao industrial apetece, para virmos para a fábrica, muitas vezes debaixo de chuva, a fim de trabalharmos sete, oito, dez e onze horas, para ganharmos apenas 180 réis, que corresponde a 5 horas de trabalho. Para o industrial ganhar mais, obriga-nos a trabalhos que só pertencem aos trabalhadores, como mouras, pregar caixas e trabalhar com as ferramentas e isto porque ganhamos menos e porque temos mais horas de trabalho que os nossos camaradas trabalhadores.
Quando nos falta dinheiro na féria, nem querem que a gente reclame essa falta, impondo-nos ao silêncio ou a rua.
Somos obrigadas a dar o peixe em volta das mesas, serviço que deve ser feito por rapazes, pois estamos expostas a insultos de alguns camaradas menos delicados.
Temos as multas, a que eles chamam “horas a baixo”, e o castigo corporal para os nossos filhos e filhas, sem respeito algum pelo sexo e pela situação.
A maior parte das oficinas é tudo quanto há de mais porco. A água da salmoura corre pelo chão, encharcando-nos os pés, e o ar é empestado, chegando, especialmente de verão, a dar-nos desfalecimentos quase de sufocar.
As nossas filhas são muitas vezes chamadas ao escritório demorando-se tempo imenso, ficando nós em ânsias por saber o que se passa, vemo-las a vir chorosas, e ai de nós, já sabemos - é a desonra, a desfloração e ninguém os pune.
Rapariga bonita tem de ser amante do industrial, do gerente e de todos que a querem prostituir, pois que não pode haver respeito quando o mal vem de cima. Se alguma resiste, vem a multa, a pancada e, por fim, o despedimento, que é o principio da fome.
É isto, camarada, que nós não queremos sofrer mais. Estamos fartas.
Preferimos morrer, mas não ceder, porque depois ainda pior nos fariam.”
Autor: Álvaro Arranja
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