Jade

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Lá fora o temporal chega, dizem que é a Hermínia.


Abanam os ramos ao som do vento da Hermínia, num abalo de fado triste e molhado, deixando os ossos húmidos, num arrepio de frio silencioso, enquanto, os falcões se aninham de novo na varanda da frente, enquanto, os brotos das árvores se esforçam por rasgar os ramos que se jogam ao alto, tentando num desespero contínuo alcançar o céu.


Nas brumas da minha memória, recordo que hoje faz trinta anos que a minha avó morreu, e eu grávida escolhi a roupa que havia de levar, um fato cor de rosa, de certa forma é a primeira vez que visualizo mentalmente a cor do fato saia-casaco, ainda lhe sinto a textura, e sinto a calma com o que escolhi, era noite, depois da hora do jantar, a mesma hora que vinha na folha de papel que nos dão com a hora da morte, estranhamente não me senti assustada, nem chorei, somente retirei a roupa do roupeiro e coloquei-a em cima da cama, dos sapatos não me lembro, nem  tão pouco de quem foi buscar a roupa, ou se a entreguei a alguém, mas daquele momento, como "quem veste um sentimento" é-me difícil esquecer, não que o queira, foi a primeira vez que tive de assumir o comando sobre um assunto nesta matéria, estando eu com uma nova vida dentro de mim, era como se estivesse entre dois mundos, a finitude do adeus e a brevidade de um até já.


Não me senti melhor, nem pior, senti que tinha de ser, no entanto não me pareceu existir abandono na morte, mas sim houve espaços vazios que não soube imediatamente como os preencher, apenas o tempo foi meu camarada nesse vazio triturador de emoções, invadiu-me como uma imensa raiz e fez crescer uma outra vida, outras conversas, outras vozes, no entanto a sensação daquela pele, que me fazia lembrar papel de seda, permanece em mim, talvez pareça estranho a esta distância, mas o que é o tempo senão a contagem dos dias, para a frente e para trás.


 



"Doutras vidas é a amarra que nos prende


Como o xaile que entrelaço nos meus dedos


A força deste amor só Deus entende


Que afasta do meu ser a dor e os medos"


Gonçalo Salgueiro

Comentários

  1. Imagem forte. A realidade tem sempre mais força que a ficção.
    Um abraço, Alice. Boa semana.

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  2. Só as mulheres têm essa força de colocar vidas, no local das perdidas, para que não seja o fim. Mas, a dor, essa não tem fim . Quanto aos falcões, esses só querem vinganças, humilhar o seu semelhante, deram-lhe o poder, vão ver como o exerce.
    Boa semana, Alice!
    Um abraço.

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  3. Faz depois de amanhã três meses que tive que escolher o fato para o meu marido, companheiro de meio século de vida. A doença venceu e em seis meses a nossa vida desabou.
    A sua partida foi uma dor imensa .
    Escolhi o fato azul e a camisa azul das flores de que ele tanto gostava.
    Temos muitas fotografias juntos em que o meu marido tem essa roupa vestida.
    Foi tudo escolhido por mim, em choque , sem ter bem consciência da realidade cruel do que aconteceu e que se tem seguido
    Venceu a doença.
    Há dias fui operada a um pulmão e deixei tudo escrito aos meus filhos para o caso de ser preciso.
    Escolhi um fato cor de rosa.
    Voltei e o fato está pendurado no armário, à espera.
    Há em mim um vazio que não sei preencher senão com saudade e mágoa .
    Aos setenta anos iria vestida de cor de rosa e se cá ficar mais um tempo irei na mesma. Não quero que percam tempo à procura de roupa...

    Gostei muito de ler e reler essa sua reflexão.
    Mena

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  4. Um forte e enorme abraço. Espero que estejas bem, hoje como ontem, as dores e as alegrias de há 30 anos coexistindo com as dos muitos amanhãs que vivemos e construímos em cada dia.

    Um beijo de saudades e de até breve :*

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