Primavera

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Às vezes sentimos que o tempo chegou ao fim, que


as portas se estão a fechar por trás de nós, que já nenhum ruído 


de passos nos segue; e temos medo de nos voltar, de dar


de frente com essa sombra que não sabíamos que nos


perseguia, como se ela não andasse sempre atrás de nós,


e não fosse a nossa mais fiel companheira. Às vezes,


em tudo o que nos rodeia, encontramos essa impressão de


que não sabemos onde estamos, como se o caminho para


aqui não tivesse sido o mesmo, desde sempre, e tudo


devesse ser-nos, pelo menos, familiar. A solução é pegar 


no fim e metê-lo à boca, como se fosse uma pastilha


elástica, derreter o sabor que o envolve, por amargo


que seja, e no fim pegar nesse resto que ficou e, tal 


como se faz à pastilha elástica, deitá-lo fora. Para


que queremos nós o nosso próprio fim? Já bastou


tê-lo saboreado, derretido na boca, sentido o seu


amargo sabor. Então, libertos do nosso fim, veremos


que as portas se voltarão a abrir, que a gente continua


a andar à nossa volta, que a sombra já não nos mete medo,


e que se nos voltarmos teremos pela frente o rosto


desejado, o amor, a vida de que o fim nos queria ter privado.


 


Poema de Nuno Júdice, Às vezes

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