Na semana passada uma actriz/modelo conhecida do público português, mas não o suficientemente famosa para dar lugar a grandes manifestações de pesar, saltou da Ponte 25 de Abril, num salto sem retorno, ela uma mulher ainda com tanto por viver, com três filhos, um dos quais com autismo severo. O ano passado esta mulher deu uma entrevista a um programa de televisão, daqueles que passam durante a tarde, diz-se que foi uma entrevista em que se antevia o sofrimento daquela mulher que assumiu os seus vícios para compensar o sofrimento de não ser capaz de estar à altura daquilo que a sociedade esperava dela: uma boa mãe, uma mulher resiliente, uma mãe e trabalhadora determinada, sem cansaços nem queixumes.
Não ouvi ou li grande coisa sobre este assunto, sobretudo de opiniões de como é viver em sofrimento, numa permanente luta consigo mesma, sendo que tal situação acabou por levá-la ao desespero total. Neste sofrimento surdo de que não se é capaz de se reencontrar a paz de espírito, o sossego do corpo, o sentir de uma abraço, a alegria de viver.
Apesar de tudo, este sofrimento foi falado no ecrã, sítio onde mais nada resta, e muita gente viu e falou, e disse que trabalhasse e que se fizesse à vida, e a mulher foi-se e eles continuaram falando, falando como se nada tivesse acontecido.
Colinas mergulham na brancura.
Estrelas ou pessoas
Me olham com tristeza, desapontadas comigo.
Um fio de hálito fica no caminho.
Ó, lento
Cavalo cor de ferrugem,
Cascos, sinos doendo –
A manhã toda
Manhã ainda escurecendo,
Essa flor ao relento.
Meus ossos sentem um sossego, os campos
Distantes dissolvem meu coração.
Eles ameaçam
Me abandonar por um céu
Sem estrelas e órfã, água escura.
Poema Sylvia Plath
Infelizmente, o suícidio, faz parte do quotidiano. Como é que algo tão tremendo, tão desesperado, tão intenso, pode de alguma forma ser encarado com naturalidade e não ser prestado o auxílio necessário?
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ResponderEliminarO desespero de vida levou-a Ana Afonso ao alcoolismo. Parece que não conseguia deixar de beber. Cobardia ou coragem, em querer partir e deixar os filhos?
ResponderEliminarDecidiu descansar. Paz à sua alma.
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Deixando cumprimentos. Feliz semana.
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Também vi a entrevista, datada de Março de 2023, parecia querer dizer que tinha, finalmente, encontrado um trabalho de que dizia gostar, mas não foi o suficiente. A vida é muito difícil e, infelizmente, muitos não a conseguem levar até ao fim.
ResponderEliminarBoa noite, Alice!
Um abraço
Às vezes aquele tipo de entrevistas em vez de se libertarem do sofrimento que parecia adormecido ou melhor mais apaziguado, faz o efeito contrário. E o apontar do dedo e o comentário em surdina aumenta mais. E sinceramente, estas entrevistas que servem para esmiuçar o sofrimento para obter audiências, onde se aproveitam da fragilidade para fazerem a caridadezinha moral, são repugnantes. Muitos aceitam para conseguirem ter trabalho na área da representação, por não terem uma rede de conhecimentos que abafam os problemas de adição e outros problemas que tenham. O que há mais é adictos na representação mas como têm lá está os padrinhos ou pertencem a um grupo social privilegiado tem trabalho e ainda ganham proveitos e são elogiados por serem supostamente viciados em tratamento/recuperação.
ResponderEliminarA sic voltou a repetir a entrevista e voltou a faturar. Os filhos (nomeadamente a mais velha) merecia não ver a história da Mãe outra vez. Não há respeito.
Dia feliz.
Não acompanhei nada mas li ontem um artigo muito bom da Helena Norte, no JN, intitulado "Vamos falar de suicídio"?
ResponderEliminar"É conhecido por efeito de Werther o aumento de suicídios na sequência da cobertura massiva e sensacionalista, por parte dos órgãos de Comunicação Social, de casos de mortes autoinfligidas. Foi descrito em 1974 por David Phillips com base na investigação sobre a influência dos média nas curvas de suicídio e o nome vem da obra “Os sofrimentos do jovem Werther”, de Johann Wolfgang von Goethe. É hoje consensual a existência de mimetização, pelo que os casos individuais de suicídio não devem, por regra, ser noticiados, muito menos com detalhes sobre métodos e circunstâncias....