Recuso-me

Estive ontem a ver um filme cuja estória se passava durante a segunda guerra mundial, o tema era sobre um homem alemão que não queria fazer juras a hitler, porque não concordava com o lema, mesmo que para isso fosse condenado à morte, o que foi, mas como ele dizia não iria assinar uma declaração para ser livre - ele já era livre. Foi incompreendido por todos os vizinhos, alguns familiares e outros que não entendiam  o que é viver sem ser-se agressivo. 


Quanto a mim vive-se hoje o culto da agressividade, tenho-me deparado com gente que se apregoa de frontal, de coração ao peito, que diz a verdade, acima de tudo a verdade, no entanto tenho constatado que nada mais é que a agressividade vestida de mentirinha, numa coisa mesquinha de ser que se julga superior, coisa que não é perecível, acima do Ser. Por todo o lado vemos que é muito mais admirada a pessoa agressiva do que aquela que é passiva, exactamente por esta conexão de que ser-se bom é uma coisa má, é algo que não leva a nada, que não somos guerreiros, determinados, como se o intimo estivesse ligado directamente com o mecanismo das acções que nos tornam rápidos.


E ele escolheu morrer para não deixar de ser quem era, e morreu livre, é mais fácil ser-se mau que bom, a bondade exige uma inteligência fina, pensamento e reflexão, a maldade é minimamente primária, coisa como o açúcar que dá energia num ápice, no entanto nos mina e vicia, tornando-nos prisioneiros de desculpas para o que fizemos, de entre elas a "verdade", coisa estúpida de se ser. 


Tantas verdades são apregoadas, palavras distorcidas até ao mais ínfimo pormenor, num dia têm um valor, no dia seguinte outro, mas como vivemos cada vez mais rápido, por vezes nem chega ao outro dia, tudo muda a toda a hora, os discursos, as vontades, o propósito, a verdade. 


Desfazem-se mentiras todos os dias numa banalidade desconcertante, importa é ter-se resposta pronta - que seja assertiva segundo a actual sociedade que pouco ou nada questiona -, dinâmica em termos de linguagem fluida e enriquecida segundo os melhores dicionários. O efeito contágio acelera o processo até o elevar ao topo da pirâmide, chegando lá nada mais há a fazer senão manter o equilíbrio, num esforço continuado para se ser assim, contudo ninguém é livre no topo.


 

Comentários

  1. Obrigada, Isabel, Bom Ano Novo, também para ti.

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  2. Excelente texto!
    A palavra guerreiros é muito utilizada e admirada, o que prova que há muitos sempre prontos para se guerrearem.
    Bom resto de dia e bom ano, Alice!
    Um abraço

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  3. Não gosto nada da expressão "É uma guerreira!" que agora se usa muito, mesmo que noutro contexto.
    Gosto do seu texto e concordo consigo. Os valores estão todos trocados!
    Feliz Ano Novo!

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  4. Obrigada, José, um excelente 2024! Abraço

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  5. Obrigada, Isabel, um excelente Ano Novo para si.

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  6. Quando li o excerto no e-mail: "homem alemão que não queria fazer juras a hitler" lembrei-me da história do homem que em 1936, num grande ajuntamento de nazis, aparece na fotografia de braços cruzados, recusando-se a fazer a saudação nazi ao Führer porque tinha casado com uma judia...

    https://visao.pt/atualidade/sociedade/2022-12-21-august-landmesser-o-alemao-que-recusou-fazer-a-saudacao-nazi/

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  7. Conheço a fotografia, é preciso coragem para ser-se livre. Bom Ano Novo.

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  8. Boa tarde:- Acredito que seja um filme muito interessante de ver.
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    Feliz Ano de 2024 para si e família.
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  9. Ficámos a saber que estive ontem a ver um filme! Alguns parecem moralistas e preocupados com o mundo, mas depois vemos que só o seu mundo lhes interessa. Escrevem para os outros lerem porque isso será do interesse deles, mas não leem o que os outros escrevem. Mas estão preocupados com o mundo! As redes sociais são boas para vermos alguns dos problemas da sociedade a ficarmos preocupados.

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  10. Parabéns pelo texto. Hoje em dia, a frontalidade vem mascarar a falta de educação, de empatia, de respeito pelo próximo dessas pessoas que se dizem frontais. Já sem falar dessa palavra “guerreira” como se a guerra fosse algo de positivo… Enfim…

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  11. Interessante..., também, fiquei a saber que há pessoas que escrevem comentários nos blogs dos outros, para os outros lerem, mas não são moralistas nem estão preocupados com o assunto, apenas escrevem por escrever, e na quase totalidade das vezes dizem sempre as mesmas palavras. Labirinto mental.

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