Fulgir

IMG_20221212_124801.jpg 


No mesmo instante em que eu, aqui e agora,


Limpo o suor e fujo ao Sol ardente,


Outros, outros como eu, além e agora,


Estremecem de frio e em roupas se agasalham.


Enquanto o Sol assoma, aqui, no horizonte,


E as aves cantam e as flores em cores se exaltam,


Além, no mesmo instante, o mesmo Sol se esconde,


As aves emudecem e as flores cerram as pétalas.


Enquanto eu me levanto e aqui começo o dia,


Outros, no mesmo instante, exactamente o acabam.


Eu trabalho, eles dormem; eu durmo, eles trabalham.


Sempre no mesmo instante.


Aqui é Primavera. Além é Verão.


Mais além é Outono. Além, Inverno.


E nos relógios igualmente certos,


Aqui e agora,


O meu marca meio-dia e o de além meia-noite.


Olho o céu e contemplo as estrelas que fulgem.


Busco as constelações, balbucio os seus nomes.


Nasci a olhá-las, conheço-as uma a uma.


São sempre as mesmas, aqui, agora e sempre.


Mas além, mais além, o céu é outro,


Outras são as estrelas, reunidas


Noutras constelações.


Eu nunca vi as deles;


Eles,


Nunca viram as minhas.


A Natureza separa-nos.


E as naturezas.


A cor da pele, a altura, a envergadura,


As mãos, os pés, as bocas, os narizes,


A maneira de olhar, o modo de sorrir,


Os tiques, as manias, as línguas, as certezas.


Tudo.


Afinal


Que haverá de comum entre nós?


Um ponto, no infinito.


 


Poema António Gedeão


 

Comentários

  1. Poema e foto fascinantes de ler e ver.
    .
    Feliz Natal … Saudações poéticas
    .

    ResponderEliminar
  2. Muito bonito!
    Boa noite.Alice!
    Um abraço

    ResponderEliminar
  3. Lindos! O poema e a fotografia!
    Este é um mundo com vários mundos dentro...
    Mena

    ResponderEliminar

Enviar um comentário