Cabeça

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Pego num pedaço de silêncio. Parto-o ao meio,

e vejo saírem de dentro dele as palavras que

ficaram por dizer. Umas, meto-as num frasco

com o álcool da memória, para que se

transformem num licor de remorso; outras,

guardo-as na cabeça para as dizer, um dia,

a quem me perguntar o que significam.

Mas o silêncio de onde as palavras saíram

volta a espalhar-se sobre elas. Bebo o licor

do remorso; e tiro da cabeça as outras palavras

que lá ficaram, até o ruído desaparecer, e só

o silêncio ficar, inteiro, sem nada por dentro.

 

Poema de Nuno Júdice 

Comentários

  1. Excelente partilha!
    Bom domingo, Alice!
    Um abraço

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  2. Poema muito bonito que muito gostei de ler
    .
    Feliz fim de semana.
    .

    .

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  3. Belo poema e fotografia bem escolhida.
    Não há nada mais perturbador que os ruídos que saiem do silêncio e ecoam dentro de nós.
    Mena

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  4. Muito bonito, obrigada pela partilha

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