
Hoje fui celebrar a chegada da Beatrice. A depressão atlântica, numa brisa esfaimada vinda do Oceanso Atlântico encharcou-me a roupa até aos ossos, mas soube-me bem, levou-me àquela velha sensação de estar-se vivo, de pertencer a algum lugar, de fazer parte de um todo.

Navegar, navegar pelas emoções, que é como quem diz: deixar-se ir pela reflexão sobre si mesmo, enfrentar as próprias tempestades, amigos como barcos salva-vidas, remar, remar assim perdidamente, como quem quer desaparecer, remar sem rumo, num barco preso num convés.

Na desordem da tempestade, a ordem das amarras, o brio dos nós de marinheiros experientes, a ordem da tarefa cumprida, o desassossego do canto das gaivotas, o céu cinzento, as gotas de água que escorrem no rosto, um fumo acesso num cigarro molhado, a barba húmida do sal.

Tudo ali está limpo, as tábuas alinhadas do convés quase que reflectem o céu, os dourados brilham sobrepondo-se às gotas de água vindas das nuvens cinzentas, naqueles poucos metros flutuantes tudo ali tem um propósito, nada é ao acaso, tanto sal derramado, tanto sol por descobrir.

Ergue-se o mastro, qual pilar, escadas de cordas, bandeiras ao vento, encharcadas mas mantendo a intenção, força de braços, força de espírito, liberdade, num rumo a vários rumos. A madeira não geme, de tanto saber adaptou-se aos braços e aos gritos, à loucura dos dias tristes, ao deslumbre das fantasias, aos amores, a tudo.

Vinda de longe, de muito longe, o que eu andei para aqui chegar, tantas milhas, tanto sal, tantas lágrimas, tantos risos, tantas saudades, no ar há um cheiro a comida, que cheira a casa, a conforto, o marinheiro diz-me que é strogonoff, e eu queria comer ali, tenho em mim saudade de navegar, é estranho que assim seja, eu que nunca naveguei, mas está-me no sangue esta alma de marinheiro.

A vida redonda, em círculos, a vida a flutuar numas tábuas feitas à medida do artesão, mestre em conhecer as ondas, homens ao mar, do mar, lobos marinhos, mão calejada do sal, passo gingado, equilíbrio, paciência, trabalho de equipa, brio, organização, porto de abrigo, barra, farol, estrela do mar que flutua.

Alguma i veja, nunca visitei o Sagres, só o fotografei atracado em Lisboa.
ResponderEliminarUm bom domingo, continue a gozar a tempestade
Bom dia, João, só agora me apercebi da minha sorte em já ter visitado o Sagres por diversas vezes, só não o tinha feito assim em dia de tempestade, adorei, pouca gente, deu para apreciar a sua essência.
ResponderEliminarObrigada, um bom domingo também para si.
Obrigada pela partilha
ResponderEliminarFui transportada para aí, através destas sentidas palavras. Obrigada
ResponderEliminarNavio Sagres um navio que gostava de visitar. Decerto que nunca o vou fazer... mas gostava, confesso
ResponderEliminarBelas fotos e textos
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Saudações cordiais … domingo feliz
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Excelente partilha! Todos sonhamos ser marinheiros, dar a volta ao mundo, abraçar todos os povos.
ResponderEliminarBoa semana, Alice!
Um abraço
Parece-me que esta visita fez bem à alma. Tanto as fotografias, como o texto, estão magnificas.
ResponderEliminar(Chegaste a receber os livros de Natal o ano passado?)