Primavera


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Hoje começa a Primavera, da minha varanda vejo as grandes árvores, estão repletas de rebentos, os pássaros pousam nos ramos juvenis feitos à medida das suas pequenas patas, depenicando os ramos naquilo que restou do Inverno. A chuva hoje caiu em modo proveitoso, deixando nos pequenos ramos pérolas de variados tamanhos. O céu manteve-se cinzento quase todo o dia. 


A estação do ano que reflecte a abundância do nascimento dos verdes, do namoro entre os pássaros, do despertar da vida que se manteve em suspenso durante o Inverno.


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Mas não é só a Primavera que se repete, também a guerra se repete na Europa, como se fosse uma etapa obrigatória a ter de ser repetida. Milhões de refugiados ucranianos deslocam-se com os poucos pertences que ainda possuem, é impossível sentir-me confortável perante as imagens e os relatos descritos por estas pessoas. É uma Primavera que começa triste.

 

Nas televisões a guerra é relatada pelos jornalistas que fazem a reportagem para que a liberdade não morra de silêncio.

 

Nesta guerra onde a Ucrânia foi invadida pela Rússia a novidade maior são os misseis hipersónicos, o invasor descreve a capacidade de destruição desta poderosa arma, exibindo-o como uma tarefa fálica.  Depois, demonstra aquilo de que são feitas as mentes perversas: o ataque a civis, a velhos e crianças, maternidades, escolas, hospitais.

 

Surpreendentemente ainda há gente que acredita nas suas palavras, como se ainda vivêssemos na Idade Média e os mensageiros trouxessem as notícias através de carta. É a propaganda, fazendo-nos recordar a caça às Bruxas, vê-se que andam por aí muitas fogueiras acessas no mundo virtual, são muitas almas à roda do pelourinho esperando atirar a sua pedra. 

 

Na calamidade que é esta guerra, como são todas as guerras, a Primavera vem de mansinho, chorosa, cinzenta, procurando fazer o que lhe é devido renovar o pacto com a vida. 

 

Sei que seria possível construir o mundo justo

As cidades poderiam ser claras e lavadas

Pelo canto dos espaços e das fontes

O céu o mar e a terra estão prontos

A saciar a nossa fome do terrestre

A terra onde estamos — se ninguém atraiçoasse — proporia

Cada dia a cada um a liberdade e o reino

— Na concha na flor no homem e no fruto

Se nada adoecer a própria forma é justa

E no todo se integra como palavra em verso

Sei que seria possível construir a forma justa

De uma cidade humana que fosse

Fiel à perfeição do universo

.

Por isso recomeço sem cessar a partir da página em branco

E este é meu ofício de poeta para a reconstrução do mundo

 

 

Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen, in O nome das Coisas

 

 

 

Comentários

  1. Alice , obrigada pela reflexão e poema.
    Não dei por a primavera chegar, não tenho coragem de olhar as flores.
    Não sinto vontade de me sentir feliz com tanto mal a acontecer...
    💙💛
    Mena

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  2. Nascimento e morte, duas vertentes que infelizmente não se anulam.
    Que seja uma primavera feliz.

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  3. Senti-me totalmente em sintonia com esta partilha Alice. A primavera que chega para a renovação, mas que vem triste, a tristeza da guerra que volta e que nos faz constatar que, ainda que tal fosse possível, nunca haverá paz e justiça no mundo...
    Triste, mas belo, tal como a poesia, que tudo torna belo.
    Bom descanso

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  4. Também sinto isso, um sentimento de tristeza profunda por ver tanta crueldade e tanto sofrimento.

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