
Era um início de uma tarde solarenga de fevereiro, no meio do minúsculo largo ladeado de casas pequenas e coloridas erguiam-se dois altivos troncos, no alto deles umas ralas folhas verdes tinham nascido havia pouco tempo, aquilo que se podia chamar de ramos tinha agora a grossura de um dedo, plantados ali há vários anos lado a lado com um assento à sua outrora sombra, mostravam-se sem querer despojados da sua dignidade, parecendo mãos tortas erguendo-se da pedra, nenhum pássaro ali poderá fazer ninho, ou abrigar-se da torrente de sol do Verão, o bafo azarento perdura no largo.

Das pedras encardidas do largo sobressaem algumas pintadas com desenhos alusivos a desejos ou gostos, não sei bem, misturam-se os gostos com os desejos e talvez sejam objectivos. Olhando para aquelas mãos tortas erguidas ao céu, vejo que não concretizaram o seu objectivo de vida, foram obrigadas a ficar-se pelos sonhos, sentindo-lhes a vergonha de se mostrarem assim, despojadas da sua majestosidade, sem sentido, ausentes de vida, moribundas perante as paredes centenárias da baixa da cidade.

As pessoas afastam-se apressadas daquele largo, olham cabisbaixas as pedras encardidas pela caca dos pombos, passam pelos troncos sem nada verem, o banco continua vazio, as mãos parecem erguer-se ao céu numa prece, numa prece muda aos nossos ouvidos, mas bem visível aos olhos de quem quer ver.
As pessoas andam numa correria tal, que não têm tempo sequer para olhar umas para as outras.
ResponderEliminarSetúbal é um dos meus locais de passeio
Beijinhos
Até as árvores rezam por dias melhores!
ResponderEliminarBom fim-de-semana, Alice!
Esta forma de podar, deixa as árvores, aparentemente, "ausentes de vida". Mas que venha a chuva e a Primavera. Com muita saúde.
ResponderEliminarVerdade Francisco, uma ausência de vida, o ano passado o largo estava tão bonito, isto não se chama podar, isto é amputar.
ResponderEliminarObrigada, muita saúde também para si.
É verdade, parece que anda tudo às avessas. Um dia ainda vamos beber um cafezinho.
ResponderEliminarBeijinhos
São umas sábias, esperam serenamente até passarmos à História.
ResponderEliminarObrigada. Boa noite, José.
O cafezinho nunca se sabe
ResponderEliminarNão consigo entender a razão desse corte dos ramos das árvores que as deixam assim... Todos os anos há reclamações na junta de freguesia por esse facto mas tudo continua igual. As árvores ficam absolutamente descaracterizadas e algumas não sobrevivem!
ResponderEliminarMena