Proteção de crianças e jovens

Hoje vi na SIC uma reportagem em que uma mãe de três crianças falava sobre o seu problema, enquanto falava era visível o seu desespero, relatava que era a cuidadora informal dos seu filho mais pequeno, o qual era portador de diversas comorbilidades, sendo que estando nesse papel não usufruía rendimento, ao todo como referiu, o salário que entrava lá para casa era o do marido, o que com horas extraordinárias chegava aos novecentos euros mensais, desse rendimento retirava-se os pagamentos da casa e outros que são necessários à sobrevivência da família. Assim e pagando trezentos euros de renda podemos imaginar o que sobra do orçamento familiar e de como é difícil sobreviver nessas condições, apenas com sacrifício e habilidade económica poder-se-à chegar ao fim do mês sem dividas. 


A mulher continua a explicar porque está ali, diz até com quem de direito já falou, o assunto que a leva à televisão é o aumento brutal da renda da casa, o aumento resume-se a sair dos trezentos euros mensais e a passar para os seiscentos (tenho dúvidas se não era mais, não fiquei atenta ao valor certo), sendo que a vida já era difícil, vai agora tornar-se insuportável, o local de residência é numa periferia, nada de especial, um T2 para seis, podemos pensar que o preço do metro quadrado é mais valioso que o ouro, que a especulação imobiliária está a tomar conta de tudo e de todos, em nome de outros valores estão a ser-nos diminuídas as hipóteses de melhorarmos a nossa qualidade de vida, e o direito a uma vida digna. A mulher fala numa calma aparente, tenta não chorar, refere que são seis os prédios que estão a ser alvo de aumentos de renda, são muitas famílias, refere que houve um suicídio, e que desconfia que tenha sido por causa disso, uma pausa para pensarmos que isto está tudo ligado, não é um vale tudo, nem o Estado deve ser pai de todos dirão, é verdade. Mas então para onde vamos? Sem dúvida que o melhor negócio é a pobreza. Podemos verificar pelo aumento da pobreza de espírito. A margem de lucro é demasiado grande.


A conversa gira à volta da família e do dinheiro, consegue-se perceber que a mulher tenta manter a calma e a postura, nos minutos finais desmancha-se e refere o que lhe vai na alma, em suma não serão as suas palavras exactas, mas foi mais ou menos isto: e vou para a rua se não conseguir pagar a renda, vou com os meus filhos, e depois a segurança social vem tirarmos? Eu fico sem os meus filhos, vão ser institucionalizados. Eu não quero isso. Não me tirem os meus filhos. Ninguém merece viver isto, numa sociedade que se quer igualitária em todos os sentidos, já é demasiado ficar sem poder pagar a casa, imaginar-se na rua, mas o mais doloroso para ela é pensar que poderá ficar sem os filhos, qualquer mãe saberá disso. O que não é uma mera hipótese, sabemos que se não tiver condições financeiras poderão lhe ser retiradas as crianças, sabendo nós que as crianças poderão ficar em instituições até que a família consiga ultrapassar a situação, sabemos também que por cada criança institucionalizada a "instituição" recebe à cabeça cerca de mil e duzentos euros. Sabemos também que que as crianças que forem para lá, não mais voltarão as mesmas. Poder-se-á chamar a esta transferência de poderes paternais, protecção de crianças e jovens. Mas, não é. Porque tal como esta mãe desespera a pensar nisto, também os filhos desesperam ao pensar no seu futuro mais próximo. É demasiado cruel para ser comparado com protecção. É urgente pensarmos noutras formas menos administrativas, digamos assim para que não sejam melindradas as instituições, de protegermos os jovens. Porque a infância não espera. 

Comentários

  1. Uma vez que tiram os filhos, aos pais, por dá cá aquela palha, o que é que se passa com as instituições? Quem é que ganha? As crianças não são.
    Boa noite, Alice!

    ResponderEliminar
  2. Sabes o que é mais revoltante? Tanta gente a viver á custa dos nossos impostos e depois quem realmente precisa de ajuda, não tem direito a nada! O tema dos cuidadores tantas vezes foi falado, mas nada de diferente foi feito para os ajudar realmente.

    ResponderEliminar
  3. Pois, este é um dever delegado às instituições...tais como outros exemplos - as IPSS.

    Boa noite, José.

    ResponderEliminar
  4. Sim, mas não se julgue que quem vive à custa são apenas os subsídio-dependentes, isso é mito, são também os que ganham e não descontam, os que pactuam com a corrupção, os que tem sede de empresa em paraísos fiscais..., esses representam valores astronómicos que dariam para colmatar estas situações. Temos a balança desequilibrada.
    Quanto ao tema dos cuidadores informais, papel muitas vezes desempenhado por mulheres, é claramente, a par com o que se passa em muitos lares, um assunto a resolver com urgência, são assuntos com os quais o jornalismo de informação se deveria interessar, todos tínhamos a ganhar, porque em algum momento da nossa vida todos vamos passar por isso.

    ResponderEliminar
  5. Claro que sim! É uma boa de neve. Chegou haver o debate nos Prós e Contra, sobre os cuidadores. Foi quando iam rever a lei, que ficou muito além da necessidade das famílias. Não é só o subsídio, mas também há muitas outras maneiras de poupar dinheiro ao estado e dar qualidade de viva aos doentes e seus cuidadores.

    ResponderEliminar
  6. Sem dúvida, tal como no rendimento mínimo, em que as pessoas recebem o subsidio, mas muitas não têm a noção de como gerir o dinheiro, de entre outras competências a adquirir, é como dar o peixe em vez de ensinar a pescar. É uma solução rápida para um problema longo, não combina, e dá poucos frutos.

    ResponderEliminar
  7. Estou sem palavras Alfazema!
    Beijinhos

    ResponderEliminar

Enviar um comentário