Garganta

IMG_20210801_103838.jpg


 


Um dia, enfiou as mãos na boca e puxou a garganta para fora.

Passou o dia a desatar nós. Caiam-lhe aos pés, as dores que ali se

cravaram.

Servindo-se das unhas, raspou o calado, que separou

cuidadosamente, da mescla

de sangue e lágrimas que lhe escorria pelos cotovelos. Depois, voltou

a colocar a

garganta no sítio e atirou com o que dali arrancou para cima da mesa.

Houve os que

perderam a fome, outros a sede, outros ainda, o sono. Depois disso

nunca mais falou.

Esta é a história de uma mulher, que dizem ser tão antiga como a rua.

Chamam-lhe a

Mulher do Vento. Dizem, que desde esse dia, a sua voz é nada mais que

um sopro leve,

que liberta das curvas do tempo e faz ouvir através de uma flauta.

Sem se importar

com o que os outros dizem ou pensam, pois só a eles lhes pertence.

Todos os dias,

à mesma hora, toca naquela esquina. Há os que passam e a chamam

de louca.

Há os que param e escutam, sem entenderem. Há a criança que canta

e a árvore

que estende os seus braços e lhe abraça a leveza. Mas só o Vento se

demora no que

ouve, rodopia sobre a rua, assobiando a mesma melodia em cada

janela, até que já

cansado a leva consigo, para a sua morada, que ninguém sabe onde

fica.

E quando todos já dormem, a rua murmura o que o vento lhe trouxe...

e a lua sorri.

 

 

 

Poema de Sónia Micaelo

 

 



 


Comentários

Enviar um comentário