Um lugar azul

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Ilustração Jacub Gagnon


 




Não sei fazer uma rosa nem me interessa


não sei descer à cidade cantando nem é grande a pena minha.


Não sei comer do prato dos outros nem quero


não sei parar o fluir dos dias e das noites e nem isso me apoquenta.


Não sei recriar o brilho do poema azul...


e isso dá-me vontade de morrer.


Procuro para além das sílabas e dos versos


a voz poderosa mais vizinha do silêncio


o meu poema azul…


o suspiro de Outono onde a brisa se aninha


no breve silêncio do perfume do alecrim


lugar das palavras e dos versos no caminho do teu rosto


junto ao rio dos teus olhos


onde a vida se faz poema


e o mar se deita nos lençóis de luz do fim do dia.


Procuro para lá das sílabas e dos versos


encontrar meu barco à entrada do mar


onde repousa teu corpo entre algas e maresia


meu amor perdido num campo de violetas.


O meu poema é tudo isto que me vive e que me ilude


que me prende ao lugar azul que procuro dia e noite


por entre os versos do meu ser.


O poema mais lindo da minha vida ainda não nasceu


não tem asas nem olhos nem sentimento


que o traga um dia o vento se vento houver


que a saudade o encontre onde ele estiver.


Dizem que no cimo dos pinheiros ainda é primavera


mas tão alto não chego


mais à mão molho a minha camisa primaveril


no regato cristalino que vai correndo por entre os dedos


num solo de cores e violino.


Não sei colher uma rosa nem sei descer à cidade cantando


sou apenas aquele que ontem dormia sobre um poema azul


e das asas da ilusão se desprendia.


Sou aquele que ontem se despia nos braços do poema que vivia


sou aquele que ontem habitava em silêncio


o poema azul que acontecia


sou aquele que ontem sonhou em vão…


com o poema azul de mais um dia.


 


Poema de Adão Cruz



 

 



 

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