
As medidas quando são tomadas de modo contraditório, denotam a desorientação das ideias, levando à desorganização dos sistemas. Podemos ir ao supermercado, mas não podemos andar na rua, podemos ir trabalhar em transportes cheios, mas não podemos ir ao restaurante durante o fim-de-semana. As escolas estão cheias, mas não são focos de vírus. Ando bêbada e não sei qual a bebida que ando a tomar.

Não morremos do mal, vamos morrer da cura. Podes estar com a tua família, mas se viveres sozinho deves manter-te assim. Ouves falar que as camas dos cuidados intensivos estão esgotadas em certo hospital, tens curiosidade em saber quantas são e sabes depois que resumem-se a umas dez. Questionas-te, afinal há muitos doentes, ou poucas camas? Noutros há camas, mas não existem recursos humanos. E passamos meses nisto.

Fala-se em fome, perda de empregos, aumento de outras doenças, e um galopante agravamento da miséria. Isso preocupa-me. Quais serão as medidas restritivas da miséria? Mais uma vez tudo se baseia em números. O pânico alastra-se, assim como a ignorância.

Temos a mania que não somos animais, no entanto apanhamos os mesmos vírus. Este ser que somos e elevado à imagem de Deus aparece agora indefeso perante um organismo invisível. Temos então mais um fantasma para nos assombrar os dias.

E se Deus for a terra que pisamos? E se o bater sísmico que se ouve a cada vinte e seis segundos for o coração de Deus? Estará Deus farto de nós? Os fantasmas são agora os sacos plásticos que transportamos para casa, os materiais que lavamos transloucadamente, mesmo que no intimo lá nos passe pelos neurónios que o vírus poderá já estar inactivo ou sem grande carga viral.

Quantas máscaras mudamos por dia? Nem sei. Desapareceram dos jornais televisivos as crises humanitárias, a fome e a seca em África, e tantos outros assuntos que levam a mortes diárias não contabilizadas para pandemia. "Cá se vai andando com a cabeça entre as orelhas", fingindo que só temos um problema quando somos levados a pensar que há apenas um problema por resolver. O sentido crítico deixou de existir, passamos assim a coexistir com o pensamento único, que é agora a direcção que nos apontam, e a qual não devemos - nunca - questionar, como forma de sermos postos de parte, tal como quando temos um vírus desconhecido.

As ilustrações são de Alan Macdonald
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Bem, muito do que aqui está é exactamente o que eu também penso.
ResponderEliminarMuitos parabéns, Alice. Texto com conteúdo e saber, para destaque!
Gostei mesmo de ler... E é bom saber que há muita gente que anda atenta ao que se passa à sua volta e com espírito critico, esta pandemia revelou muito do pior que há em nós e nesta vemos que nem sempre os "bons da fita" são realmente os bons... O mundo tornou-se ainda mais perigoso com a desinformação e com os cavaleiros da távola. Espero que o pós-pandemia mude um pouco as coisas, embora já tenha tido essa esperança após a crise de 2008 e as coisas não tenham ficado propriamente melhores.
Disruptivo é escrever assim. Boa!
Olá Alice, gostei muito do teu post, concordo com as tua ideias. bjs
ResponderEliminarhttps://ohomemlobo.blogs.sapo.pt/solidao-em-pandemia-8687
Excelente post! Será que vamos acordar a tempo?
ResponderEliminarEstou como tu, ando bêbeda e também não sei qual a bebida que ando a tomar, já agora, nem eles sabem...
ResponderEliminarBoa semana
Pois. E no interior das grandes superfícies os hipermercados(que além de mercearia e produtos para animais) vendem livros, jornais, revistas, tabaco, roupa, brinquedos... podem estar abertos. As lojas do interior, como tabacarias, livrarias têm de encerrar portas, tais como todo o comércio de rua. A fechar as 13h00 ao fim de semana deveria ser para todo o comércio. As pessoas têm muito tempo para fazer as suas compras até as 13h00. Assim, só favorecem os grandes grupos de hipermercados.
ResponderEliminarExcelente! Ninguém sabe o que fazer, andamos todos a aprender. Não ir ao restaurante compreende-se, porque temos de tirar a máscara.
ResponderEliminarBoa noite!
Não me diga que "E é bom saber que há muita gente que anda atenta ao que se passa à sua volta e com espírito critico!". Se é assim, isto só lhe interessa para certos assuntos. Afinal quase tudo é feito por interesse.
ResponderEliminarMas tem razão, "o pior que há em nós e nesta vemos que nem sempre os "bons da fita" são realmente os bons. (Muitos usam uma máscara!) O mundo tornou-se ainda mais perigoso (há muitos hipócritas).
Se disser que existem assuntos que não me dizem nada, ou pouco, estaria a mentir, meu caro. Além de ter capacidades limitadas como qualquer ser-humano escuto todos os homens, mas falo a poucos... E sim, não posso estar em todos os combates, se o LDC consegue, óptimo.
ResponderEliminarTodos temos uma máscara e todos temos um certo grau de hipocrisia... Uns vão maisl longe, e é desses que devemos ter medo.
Começo por dizer que querem que vejamos uma imagens para ficarmos maravilhados, a mim não me dizem nada, já passei essa fase.
ResponderEliminarÉ fácil criticar os outros, bem mais difícil é dar o exemplo. Disse:
"Podemos ir ao supermercado, mas não podemos andar na rua, podemos ir trabalhar em transportes cheios, mas não podemos ir ao restaurante durante o fim-de-semana. As escolas estão cheias, mas não são focos de vírus. Ando bêbada e não sei qual a bebida que ando a tomar".
Em relação à 1ª frase, parece não perceber a diferença entre o que é essencial e o que não é. Não admira, se bem me lembro tem prioridades invertidas, o ambiente e os animais primeiro, depois os seres humanos. Em relação à segunda frase, quer que as escolas fechem? Em relação à terceira, faz sentido que quem ande bêbado, enquanto está assim não saiba que bebida tomou.
Se não morremos do mal, vamos morrer da cura. Assim sempre andamos cá mais algum tempo!
Disse: "Podes estar com a tua família, mas se viveres sozinho deves manter-te assim". Sim faz sentido pois se estamos com a nossa família é porque vivemos com eles, devemos ir para debaixo da ponte?
Mas tem razão, a ignorância alastra-se, (assim como o circo). Eu aprendi que somos animais RACIONAIS, assim é normal apanharmos os vírus.
Como vê, o sentido crítico não deixou de existir, mas tem razão os que questionam por vezes são postos de parte, são mal vistos porque não "seguem a manada".
Eu acho que nem eles sabem o que fazer
ResponderEliminarEssa medida só vai ter como consequên ia o aumento da "densidade de clientes" numa janela de tempo mais restrita durante o fim de semana, enfim, tudo o que se quer evitar
ResponderEliminarQuem pensou nisto não deve ser responsável pelas compras da família no fim de semana. É no sábado e no domingo que os trabalhadores, que não têm motoristas e assistentes ao serviço , aproveitam para fazer as compras. Quem está em teletrabalho ou com os filhos em confinamento não consegue sair durante a semana nas horas de menor afluência (menor densidade de clientes ou seja número de pessoas por m2 das zonas comerciais).
Tristes tempos estes em que se morre do vírus, mas também de outras doenças, agora menos acompanhadas, de solidão e (por este andar, em breve) de fome. Por aqui, surgem mais "carros-residência" estacionados no caminho.
ResponderEliminarUm texto magnífico com imagens igualmente marcantes. Gostei genuinamente e Revejo-me nesta forma de pensar. 🤗
ResponderEliminarTodos temos assuntos que não nos dizem nada ou pouco e se não fosse assim significava que não tínhamos capacidade de destingir a relevância deles. Como o tempo e as nossas capacidades são limitadas, têm de haver prioridades de acordo com a relevância dos assuntos.
ResponderEliminarMas é aqui que alguns problemas começam, existem prioridades invertidas pois são de acordo com os interesses e não de acordo com a relevância para a sociedade. Sabemos que alguns falam em certos assuntos como se dessem valor à ética e aos princípios, mas na verdade dão valor ao seu "umbigo".
Não quer dizer que sejam todos mas tem razão e por isso eu faço certas criticas: "Todos temos uma máscara e todos temos um certo grau de hipocrisia... Uns vão maisl longe, e é desses que devemos ter medo."
Alguns dos que vão mais longe é quem tem poder e "filtra" a informação que deve chegar até nós. Já antes do 25 de Abril era assim. Eu não diria que devemos ter medo, mas ficar bastante preocupados. A diferença é que eu falo muito nisto no meu blogue.