Julho 1944

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Quando brilhou a aurora, dissolveram-se
Entre a luz as florestas encantadas,
Arvoredos azuis e sombras verdes,
Como os astros da noite embranqueceram
Através da verdade da manhã.


 


Sophia de Mello Breyner Andresen, in Poesia, 1944


 


Tenho estado a ler sobre Auschwitz, Julho de 1944, é-me difícil de ler, tenho-o lido aos poucos, continuo surpreendida com as atrocidades ali cometidas, com a banalização do sofrimento, com a brutalidade da morte, da morte lenta, da morte através da escolha da vida com um simples gesto para a direita ou para a esquerda, as memórias das filas intermináveis de gente, as pilhas de roupas e de pertences expostos ao longo da linha férrea, dos fornos onde milhares de corpos foram queimados, do cheiro adocicado no ar, do desaparecimento de famílias inteiras, onde o lucro das empresas de produtos químicos e os negócios paralelos que reinavam acima de tudo e de todos os infelizes que ali iam parar, as experiências laboratoriais com o à vontade sobre o sofrimento e a morte alheias. 


Julho de 2020. Por todo o lado se fala acerca do problema da saúde mental que vamos ter de enfrentar por termos ficado confinados durante este tempo, pela perda de muitos empregos, pela falência de muitas empresas,  pelo medo instalado de contrair a doença, pela ansiedade em relação ao presente e ao futuro. E eu pergunto-me, o que  fizeram estas pessoas que viveram o Julho de 1944, para poderem ultrapassar as suas memórias e as suas perdas, enquanto Sophia escrevia sobre as florestas encantadas? 


 


 


 

Comentários

  1. Sempre li sobre essa época negra da história da humanidade. Era muito nova quando li "Treblinka", e me apercebi que o Ser humano pode ser bastante cruel, enquanto outros simplesmente assistem.

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  2. uma reflexão que requer tempo para digerir. obrigada pela partilha

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  3. A redoma e a carne para canhão. Penso que não fizeram nada! Uns carregaram durante o resto da vida os fantasmas, os outros seguiram em frente.
    Boa noite

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  4. Seguiram em frente, olharam os outros de forma diferente, perceberam que aquilo que é hoje amanhã já não é, apesar de tudo, ficaram mais fortes, talvez mais desencantadas, mas mais atentas e despertas para a realidade.

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  5. Não sei explicar isto, mas durante muito tempo evitei ler ou ver filmes sobre esta época, entretanto já vi alguns documentários, filmes e li alguma coisa, este livro que estou a ler foi-me oferecido no mês passado, é terrível pensarmos que podemos fazer tanto mal ao próximo, invocando qualquer desculpa.

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  6. E já fizeram muito, nada disso é fácil.

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  7. E daí podermos desfrutar o mundo que temos hoje, apesar de lhe darmos pouco valor, e pensarmos que é garantido, é importante cultivar essa força mental que os mantinha alerta.

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