Corria o ano de 1974, era a minha primeira semana de aulas, no meu primeiro ano da escola primária, tínhamos acabado de sair da sala de aula e estávamos a caminho das brincadeiras feitas no recreio, quando oiço: não brinquem com aquela menina, porque ela é preta! Olho, e a miúda que disse aquilo estava de dedo em riste apontado para mim a rir-se, não compreendi aquilo, e nem tive tempo de reacção, pois a professora que estava atrás de nós fez ouvir a sua voz, não me lembro do conteúdo das suas palavras, apenas que começou com "isso não se diz", todos tivemos de ouvi-la, mas a que disse foi ainda chamada à parte para uma conversa mais abrangente. Sei que durante quatro anos, o tempo que passei naquela turma, nunca mais ninguém falou sobre o assunto, nem eu alguma vez falei com a tal miúda, não falei nisso em casa, aquilo para mim passou-me ao lado. Eu não tenho carapinha, nasci em Setúbal, passava o meu Verão praticamente na praia, a minha pele morena ficava bastante torriscada pelo Sol, também não preciso de muito para isso, bastam-me três dias, e com o tempo chegaram muitas pessoas vindas do Ultramar, os chamados Retornados, apesar de muitos terem nascido por lá nunca se livraram dessa alcunha, eu conhecia muita gente vinda de Angola, dava-me com eles, sabia como se vivia lá porque eles me contavam, conhecia as suas comidas, até sabia como eram as suas praias, muita gente me perguntou se eu era de lá, eu respondia que sim, divertia-me com aquilo, da burrice das pessoas que olham para a cor da pele e fazem histórias na sua cabeça. Assim como apreciei a atenção dada na escola à profissão dos pais dos meus colegas, a mim nunca ninguém me pediu para fazer um trabalho sobre a profissão do meu pai, que era pescador, mas era habitual falar-se em quem trabalhava em escritórios e noutras artes parecidas, foi sempre muito interessante ver a vida dos outros, pelo prisma dos outros, mas também seria salutar aprender a diversidade e em como os diversos modos de vida se encaixam na sociedade e qual a sua importância em cada contexto.
A mim não me surpreendem as declarações do André Ventura sobre os Ciganos, porque como ele há muitos, não só com os Ciganos, mas com uma infinidade de outros preconceitos, muitos dos quais tenho sentido na pele, por exemplo: quando digo que trabalho numa escola, perguntam-me logo se sou professora, digo que sou auxiliar, calam-se logo, é como se eu tivesse algo contagioso, assim como quando dizemos que temos piolhos, a reacção é essa. Ou então quando vou a entrevistas de emprego, e me perguntam o que faço, a mesma reacção, se peço uma declaração com as minhas funções, adivinhem o que vem à cabeça de lista: limpeza dos espaços, já tive de pedir para colocarem aquilo em último, e ficam assim a olhar para mim como se eu fosse um alien. É muito difícil alguém triunfar num mundo preconceitoso, talvez por isso tantos dos nossos emigrantes sejam reconhecidos num outro país. Aqui ainda imperam muitos pressupostos vindos do tempo da outra senhora, alguns estão tão enraizados que servem de desculpa para não dar oportunidade a quem dá todos os dias o seu melhor.
O racismo não faz qualquer sentido. Nunca fez, não faz, não deveria vir a fazer. O sangue que corre nas veias é todo ele de cor vermelha. A cor da pele é apenas um acessório do coração. Jamais serei a favor seja do que for que meta no meio racismo. Jamais.
ResponderEliminar.
Cumprimentos poéticos
Proteja-se
Dizer o quê? Que tens razão em tudo o que disseste, concordar com os pressupostos que vêm do tempo da outra senhora, e que é um facto que estão tão enraizados que tão depressa não desenraizam? Pois é isso mesmo.
ResponderEliminarExcelente, Alice, parabéns!
ResponderEliminarBeijinho.
Oh Alice, que excelente texto e que desabafo!!!
ResponderEliminarTambém fui da altura dos "retornados" e também senti o preconceito que se fazia contra eles e que ainda se faz!
Também já trabalhei numa escola, como assistente operacional, chamavam-me "contínua" e senti na pele o desconforto por ser tratada como inferior, por pais, professores e por funcionários com uma categoria superior à minha. Muitos até tinham habilitações literárias inferiores às minhas.
Infelizmente a mentalidade ainda não evoluiu e julga-se as pessoas por crenças, baseadas na profissão, local de nascença, cor da pele, etc., que não correspondem ao valor que têm!
Beijinhos Alice
Boa Noite
Sim, sem dúvida que "a cor da pele é apenas um acessório", julgar as pessoas pela sua cor revela um conhecimento muito redutor do mundo.
ResponderEliminarPois, estão tão enraizados que parecem sebes de silvas, por mais que as cortes há sempre alguma que te pica.
ResponderEliminarMuito obrigada pelas suas simpáticas palavras.
ResponderEliminarBeijinhos
Há muito racismo e preconceito. Hoje, nem tanto, mas antigamente, bastava alguém dizer que era doutor, para os outros se porem em sentido, e se fosse preciso, até lhe lamberem as botas.
ResponderEliminarConheci um alfaiate, em Lisboa, transmontano, que quando um rapaz lhe abordava a loja, pedindo trabalho, a sua primeira pergunta era: " de onde é"? " Sou alentejano" .Resposta do alfaiate: " obrigado, estou servido.
Tanto azar que, para a sua única filha, calhou-lhe como genro, um alentejano.
Boa noite
Obrigada Luísa, é reconfortante "ouvir" um testemunho de quem viveu as mesmas situações, porque tenho dias em que me sinto "fora da caixa" com as minhas ideias, dá-me a sensação que depois de um certo tempo há pessoas que deixam de se importar com o serem "maltratadas", habituam-se, e outras gostam de inferiorizar os outros, ou nem se apercebem, ou têm muito prazer nisso, sei lá...
ResponderEliminarBeijinho e Boa-Noite.
Hoje em dia essa situação melhorou, mas ainda existem muitos laivos desses tempos. Bem feito para esse alfaiate, teve que engolir em seco, custa muito. Espero que tenha sido o resto da vida.
ResponderEliminarBoa noite.
Bolas!
ResponderEliminarFoi pena não ter lido isto ontem, antes de ensardinhar. Teria dado uma excelente ligação.
Belíssimo texto, Alice!
Tudo o que se faça para eliminar o preconceito é pouco, muito pouco :(
Não baixar a guarda nunca, porque a permissão leva aos piores cenários. Enfrentar a verdade e deitá-la cá para fora também alivia, é um excelente exercício de motivação pessoal. :)
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