Ando com ele a toda a hora


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Ilustração Natasha Chetkov


 


 


Há metafísica bastante em não pensar em nada.


 


O que penso eu do Mundo?


Sei lá o que penso do Mundo!


Se eu adoecesse pensaria nisso.


 


 


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Ilustração Sara Sánchez


 


 


Que ideia tenho eu das coisas?


Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?


Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma


E sobre a criação do Mundo?


Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos


E não pensar. É correr as cortinas


Da minha janela (mas ela não tem cortinas).


 


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Ilustração Vrigit Smith


 


 


O mistério das coisas? Sei lá o que é mistério!


O único mistério é haver quem pense no mistério.


Quem está ao sol e fecha os olhos,


Começa a não saber o que é o Sol


E a pensar muitas coisas cheias de calor.


Mas abre os olhos e vê o Sol,


E já não pode pensar em nada,


Porque a luz do Sol vale mais que os pensamentos


De todos os filósofos e de todos os poetas.


A luz do Sol não sabe o que faz


E por isso não erra e é comum e boa.


 


 


Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores


A de serem verdes e copadas e de terem ramos


E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,


A nós, que não sabemos dar por elas.


Mas que melhor metafísica que a delas,


Que é a de não saber para que vivem


Nem saber que o não sabem?


 


 


«Constituição íntima das coisas»...


«Sentido íntimo do Universo»...


Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.


É incrível que se possa pensar em coisas dessas.


É como pensar em razões e fins


Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores


Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.


 


 


Pensar no sentido íntimo das coisas


É acrescentado, como pensar na saúde


Ou levar um copo à água das fontes.


 


O único sentido íntimo das coisas


É elas não terem sentido íntimo nenhum.


 


Não acredito em Deus porque nunca o vi.


Se ele quisesse que eu acreditasse nele,


Sem dúvida que viria falar comigo


E entraria pela minha porta dentro


Dizendo-me, Aqui estou!


 


(Isto é talvez ridículo aos ouvidos


De quem, por não saber o que é olhar para as coisas,


Não compreende quem fala delas


Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)


 


Mas se Deus é as flores e as árvores


E os montes e sol e o luar,


Então acredito nele,


Então acredito nele a toda a hora,


E a minha vida é toda uma oração e uma missa,


E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.


 


Mas se Deus é as árvores e as flores


E os montes e o luar e o sol,


Para que lhe chamo eu Deus?


Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;


Porque, se ele se fez, para eu o ver,


Sol e luar e flores e árvores e montes,


Se ele me aparece como sendo árvores e montes


E luar e sol e flores,


É que ele quer que eu o conheça


Como árvores e montes e flores e luar e sol.


 


E por isso eu obedeço-lhe,


(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?),


Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,


Como quem abre os olhos e vê,


E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,


E amo-o sem pensar nele,


E penso-o vendo e ouvindo,


E ando com ele a toda a hora.


 


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Ilustração Asyle


 



 

 

 

 


O Guardador de Rebanhos, in Poemas de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa. 


  

 

 

 

 

 

Comentários

  1. E pronto. Pensar para quê. Se eu adoecer logo penso... se é que ainda existo.
    .
    Bom fim de semana
    Cuide-se

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