Diário dos meus pensamentos (16)

Estive a enumerar este diário para que ficasse mais fácil de perceber isto, assim já lá vão dezasseis dias, é isto, parece que o tempo passa devagar, mas não. Neste momento o meu filho está a declamar o poema Mostrengo, eu sou o júri e vou avaliar a declamação. Qual é o pior mostrengo que podemos enfrentar por estes dias? Será o tempo? A falta de paciência? A ansiedade? O medo? A desinformação? O vizinho que teima em cantar? O badalhoco que deita luvas e máscaras para o chão? Andar de transportes públicos? Despejar o lixo? 


 



 


O mostrengo que está no fim do mar


Na noite de breu ergueu-se a voar;


À roda da nau voou três vezes,


Voou três vezes a chiar,


E disse: «Quem é que ousou entrar


Nas minhas cavernas que não desvendo,


Meus tectos negros do fim do mundo?»


E o homem do leme disse, tremendo:


«El-Rei D. João Segundo!»


 


«De quem são as velas onde me roço?


De quem as quilhas que vejo e ouço?»


Disse o mostrengo, e rodou três vezes,


Três vezes rodou imundo e grosso,


 


«Quem vem poder o que só eu posso,


Que moro onde nunca ninguém me visse


E escorro os medos do mar sem fundo?»


E o homem do leme tremeu, e disse:


«El-Rei D. João Segundo!»


 


Três vezes do leme as mãos ergueu,


Três vezes ao leme as reprendeu,


E disse no fim de tremer três vezes:


«Aqui ao leme sou mais do que eu:


Sou um Povo que quer o mar que é teu;


E mais que o mostrengo, que me a alma teme


E roda nas trevas do fim do mundo;


Manda a vontade, que me ata ao leme,


De El-Rei D. João Segundo!»


 


Poema de Fernando Pessoa

Comentários

  1. Que boa escolha, especialmente nesta altura em que algumas mãos querem largar o leme. Obrigada pela partilha.

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