Onde fica a fissura?

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Fotografia Artur Pastor


 


 


 


Sempre vivemos para além
da memória
apesar do lapso apunhalando o tempo


Porque antes fomos
connosco noutra hora, e agora
voltamos quando já nos esquecemos


Onde fica a fissura, a brecha
por onde passámos
a chegarmos de novo ao nosso presente


Infringindo as regras das horas
improváveis
hoje igual a ontem, já inexistente


Partimos e tornamos na nossa
eternidade
assim a repeti-la num infindo repente


Perdidos um do outro sempre
a regressarmos, revertendo
a queda que nos ata e desprende


Onde está o estilete de cravar
no peito, onde está
o incêndio, onde está o veneno?


Tanta imprudência que jamais
revelamos, calando
um ao outro aquilo que queremos


Fugaz a madrugada volta a luzir
no espaço, entre o prazer
aceso e o lento segredo


Efémeros os sentimentos
que depois se refazem
como se dissolvem as paixões ardentes


Apesar das tormentas,
para sempre voamos
século após século no ressalto dos ventos


 


 


Poema Maria Teresa Horta

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