Mulheres

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Ilustração Catrin Welz-Stein


 


 


Há mulheres que trazem o vento no corpo. Irmãs das
tempestades, são cúmplices dos seus próprios naufrágios.
Ficam suspensas nos seus dedos de água quando é suave
a sua ancoragem.
À noite repousam exaustas. Procuram nas margens dos rios e
no emaranhado dos bosques um lugar onde remansear
a tortura das ondas que as assolaram.
A almofada sabe-lhes a nuvem, a novelos leves de algodão
onde submergem a face e sorriem ao sono.
Acordam com a aparição cintilante e trémula da primeira
centelha de sol. Esbracejam. Deixam rolar uma pequena
e redonda lágrima de orvalho que lhes ficou no rosto.
Todas as manhãs, a água das suas mãos limpa as pétalas
das flores gigantes da noite que as acolheram.
E voltam, saias revoltas nos ares do dia. Bebem o mel
dos frutos, revolteiam as pernas nos troncos das árvores
silvestres e entram nos barcos como se fossem de papel.


 


 


Poema Lília Tavares,  in Bailarinas de corda

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