Hoje apetece-me contar uma estória

Era eu uma miúda e atravessava o Sado numa traineira, ao final do dia o cheiro do gasóleo entranhava-se nas minhas narinas, era também um cheiro de oceano, serra e rio, isto tudo misturado como resumo do dia, para mim estes cheiros funcionam como marcadores de memória.


 


Atravessava então o rio azul e manso, onde podia ver as várias correntes que entravam e saíam do oceano, na cabine e ao leme alguém levava o barco que trepidava a meus pés, era uma sensação relaxante, parecia coisa de brincar,  nas tábuas do barco escamas secas resistiam às lavagens, havia um cheiro a peixe que me lembrava gaivotas, beliches estreitos e claustrofóbicos, redes e aparelhos de pesca, fateixas, anzóis, e armadilhas para polvos, bóias vermelhas, um fogareiro, fogão, antena de rádio, uma bandeira, um santo. 


 


As cores do barco eram vibrantes, nas laterais por fora, estavam pendurados pneus, amarrados com cordas grossas, à proa estava escrito o nome da embarcação, na popa levava a reboque um bote, que servia para descermos para terra. 


 


Tudo ali me fascinava, havia tanto por descobrir, tanto por aprender. Como consertar uma rede, como lançar a rede, como armar os aparelhos(armadilhas de pesca), como recolher a rede, quais os melhores sítios para apanhar peixe, como chegar lá, como vencer as tempestades apenas com aquelas tábuas, como enfrentar a noite, qual a emoção ao receber o sol da manhã, o vento, a chuva, o sal, tudo tão vibrante ali naquele canto suspenso na água. 


 

Comentários

  1. Há sensações que nos ficam para sempre na memória!

    ResponderEliminar
  2. São aprendizagens do presente para o passado.

    ResponderEliminar
  3. Não sei porquê essa tua história me é tão familiar.

    Beijinhos e bom fim de semana

    ResponderEliminar
  4. É a história de quem teve o mar nas veias.

    Bom fim-de-semana para ambas. Beijocas :)

    ResponderEliminar
  5. É isso mesmo - o mar nas veias.

    Obrigada e bom fim-de-semana.

    ResponderEliminar
  6. Passado tanto tempo vejo finalmente que sou uma sortuda.

    ResponderEliminar
  7. Um ganha pão tão difícil, onde a vida está sempre em perigo!

    ResponderEliminar
  8. É um lindo relato de momentos significativos na vida da Alice!
    Histórias lindas de um rio azul que parece quererem destruir...
    Por ganância e maldade, já que por ignorância não pode ser.
    Mena

    ResponderEliminar
  9. Tem razão Mena, não há-de ser por falta de informação que o Sado está em perigo.

    ResponderEliminar
  10. Alice,
    estive há alguns dias de passagem pela Comporta e avistei, da praia, alguns dos habitantes mais famosos do estuário do Sado: os golfinhos. Este texto dá-me vontade de voltar novamente um dia e descobrir, ver, espreitar mais daquela bonita região, quem sabe, de barco também.

    ResponderEliminar
  11. Eles saem todos os dias do estuário em busca de comida, os juvenis alimentam-se nas pradarias, que ficam dentro do estuário, depende também da marés, dos meses do ano, do tempo, no Verão passam muitas vezes para sul de manhã, mas também podem passar rente à Arrábida,no entanto regressam sempre ao estuário ao final da tarde - regressam a casa.

    ResponderEliminar

Enviar um comentário