Não  tem obrigatoriamente de dizer tudo

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Às vezes, um verso transforma o modo como 
se olha para o mundo; as coisas revelam-se 
naquilo que imaginação alguma a supôs; e 
o centro desloca-se de onde estava, desde 
a origem, obrigando o pensamento a rodar 
noutra direcção.


 


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O poema, no entanto, não 
tem obrigatoriamente de dizer tudo. A sua 
essência reside no fragmento de um absoluto 
que algum deus levou consigo.
Olho para 
esse vestígio da totalidade sem ver mais 
do que isso — o desperdício da antiga 
perfeição — e deixo para trás o caminho 
da ideia, a ambição teológica, o sonho do 
infinito.


 


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De que eternidade me esqueço, 
então, no fundo da estrofe?


 


 


 


Poema de Nuno Júdice, in O Movimento do Mundo, 1996


 


As ilustrações são de Jon Krause


 

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