Hoje apetece-me contar uma estória

Nos idos anos 80, eu tinha uma vizinha que estava sempre zangada com o mundo, era com os vizinhos, era com os moços que faziam barulho, era com a mulher que atendia pessoas para resolver problemas espirituais, enfim andava sempre num frenesim de nervos.


 


Ela era baixinha e usava o cabelo muito curto, havia alturas em que o marido, instruído por ela vinha dar um berro aos moços que andavam por ali na galhofa. A malta fazia de propósito só para os arreliar, às tantas o homem desistia, mas ela continuava, por vezes lá vinha um balde com água, nesses tempos haviam  assuntos que se resolviam com água fresca e sem avisos. As mães nunca tomavam as dores dos filhos, sabiam que eles às vezes abusavam. 


 


Um dia o meu irmão e os outros resolveram pregar-lhe um susto: fizeram um refogado com tomate e cebola, juntaram outras mistelas e meteram aquilo em cima do tapete da mulher, pegaram num carvão e escreveram no muro em frente à porta: vade retro a Satanás. Coisas que os moços ouviam dizer, vindo lá daquela casa, onde haviam sempre pessoas à porta. Eram gritos todo o santo dia, ecoavam pela rua e os moços divertiam-se.


 


A mulher veio perguntar à minha mãe se tinha visto alguém por ali, ela nada sabia, eu também não, ninguém se lembrou dos moços. O tapete foi deitado fora com muito cuidado para não mexer naquilo, não sei com que água retiraram as letras gravadas a carvão, mas sei que a mulher que odiava a outra, aquela que atendia pessoas, começou a ter mais uma freguesa. A mulher começou a desconfiar de tudo e de todos, retirou os vasos que tinha à porta de casa e deixou de refilar com os moços, a rua perdeu a graça e já não se ouviam gargalhadas. 


 


Aquela mulher altiva e rebitesa passou a andar de cabeça baixa, talvez com medo, acreditando  numa mentira que se instalou na sua mente, instigada por outros a crer que alguém lhe queria mal, provavelmente a associar situações de vida com maus-olhados e outros credos. Deixou de ser quem era e passou a ser um fantoche. 


 


 


 


 

Comentários

  1. É tão fácil esvaziar as pessoas... e a inconsciência pode ser terrível.
    Nunca medimos o alcance dos nossos gestos, na maturidade porque sabemos existirem factores que desconhecemos, na infância/adolescência porque não sabemos o que são factores.

    Bom, sempre se poupou o desperdício de água :)

    ResponderEliminar
  2. Heranças da Inquisição ainda dão nisto :-)

    ResponderEliminar
  3. Ui a mulher ficou mesmo com medo...
    Cheira-me a consciência pesada!

    ResponderEliminar
  4. Sim, quando a manipulação é uma arte, a coisa torna-se mais fácil. Há gestos dos quais desconhecemos o seu desfecho, neste caso uma simples brincadeira, levou a uma mudança drástica de vida. Pode parecer pouco, porque é a vida dos outros, mas é importante pensar nisso.

    Confesso que me divertia quando eles apanhavam banho. Era verdadeiramente genuíno.

    ResponderEliminar
  5. Não me parece, para mim foi influenciada por outros. :)

    ResponderEliminar
  6. Quando ia da escola para a camionagem, havia colegas que tocavam às campainhas de alguns prédios. Havia um senhor que também atirava baldes de água. Um dia atirou água com lixívia e teve problemas com a polícia porque causou danos e ferimentos...

    ResponderEliminar
  7. Ela atirava água limpa. Eu também me divertia a tocar às campainhas, mas nunca apanhei com água.

    ResponderEliminar
  8. Quando somos um furacão para disfarçar o medo... mais cedo ou mais tarde o vento acalma e acabar por revelar quem somos...

    https://titicadeia.blogspot.com/

    ResponderEliminar

Enviar um comentário