Presença

 


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Fotografia Artur Pastor


 


Há no mar uma presença que me chama, são vozes vindas de longe, de muito longe, onde a minha alma liquida quereria chegar. Não sei localizá-las, apenas as sinto. Estarão brincando nas ondas? Ou em águas profundas? No meio de tempestades? Ou em mares cristalinos? Sinto o sal na boca e nos dentes, incham-me os lábios da salmoura. Fico assim durante horas. É como se o mar falasse por mim.


 


Aquelas águas escuras fazem-me sonhar com mil mundos ali debaixo. É fria a água, como a morte. Tenho medo de nadar ali, mas gosto de ficar parada a olhar e a imaginar o que ali se passa.


 


Estou a boiar, a água abraça-me, acolhe-me naquela presença que sinto, onde estão meus avós e meu pai que navegaram nestas águas. Nunca me disserem que tinham medo de tempestades. Uns valentões, que navegavam em tábuas pintadas de cores garridas. 


 


Contavam aventuras de gaivotas que perseguiam os barcos, de golfinhos saltitantes, de peixes escamudos, de dias de muito sol, de sentir as pernas bambas de tanto puxar a rede. Nunca falavam do desgosto da rede vazia, amanhã era outro dia. Nova faina, novo mar, outro sol, outra esperança.


 

Comentários

  1. Um texto muito belo e comovente.
    Uma verdade que fica escondida nas águas que foram o nosso primeiro berço.
    Por isso voltar à água é tão aconchegante.
    Mena

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