Uma reflexão no Dia do Trabalhador

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Ilustração Giuseppe Pelliizza


 


Antigamente, na generalidade, os trabalhadores laboravam em fábricas, na pesca, ou na agricultura, andavam rotos, sujos e descalços porque eram mal pagos e  mal vistos. Eram pessoas que não sabiam de nada, ranhosos, não letrados. Depois vieram os trabalhos de escritório, trabalhos de responsabilidade, melhor pagos, as pessoas passaram a vestir-se melhor, e a distanciarem-se dos rotos e sujos. Apareceram os chefes e os directores e os lambe botas. E o mundo melhorou a olhos vistos. E as pessoas esqueceram-se das lutas laborais e apenas conhecem os direitos que agora têm. 


 


Os anos passaram e agora temos um grande leque de profissões, umas muito bem pagas, vistas como extremamente importante pela sociedade, outras nem tanto, existem ainda outras que são  descartáveis. A outras foram dado termos como: colaboradores. A luta por melhores direitos laborais passou a ser mal vista pelos próprios trabalhadores. Entrar a horas no emprego e sair sempre depois da hora laboral é visto como um exemplo divinal de colaborador, mesmo que o querubim tenha andado na ronha durante o dia. Portanto a aparência é da maior importância. A forma como nos vestimos, falamos e nos apresentamos no nosso local de trabalho faz de nós um modelo, bom ou mau.  E tal como no princípio das lutas continuam a haver os chefes os directores e os lambe botas. 


 


O trabalho é uma alavanca para a subida na estratificação social, porque nele está contida não só a valorização social de cada pessoa que o concretiza, como a quantificação monetária que faz com que seja possível essa subida. Tal como um bolo de camadas em que a última é a melhor e a primeira é a que está esborrachada. Se está esborrachada não presta para nada. Ninguém quer ser a primeira camada que está em baixo. A primeira é a mais mal paga: imagine-se, ninguém precisa que se limpem sanitários? É verdade que todos cagam, mas é dispensável um ordenado digno, portanto ordenado de merda para trabalho de merda, essas pessoas que se sujeitam a este tipo de trabalho provavelmente não sabem fazer mais nada? É o que pensa a generalidade das pessoas. Não estudaram? Isto é o que deixa transparecer o preconceito social. E se todos tivessem estudado muito? Será que o trabalho de limpar a merda dos outros seria considerado prestigiante e mais bem pago? Ou andaríamos todos a boiar na merda?


 


 


 


 

Comentários

  1. Brilhante reflexão!
    Bom feriado!

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  2. Por norma não comento artigos com vernáculo, mas este tenho de dizer que está lá ;-)

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  3. Olá Alice, feliz ou infelizmente já não é bem assim. Limpar sanitas é mais bem pago que muito trabalho especializado para o qual as pessoas estudaram vários anos. Conheço vários exemplos quer nas empresas onde trabalhei, quer na minha família. Se é o correcto não sei, haveria muitas formas eventualmente correctas de escalonar os empregos, mas a que está em vigor é a lei da oferta e procura, e como cada vez menos gente se oferece para limpar sanitas a procura tem feito subir os preços. O que faz falta à luta dos trabalhadores é lutarem numa só guerra. Anda cada um a lutar para o seu lado e pelos vistos uns têm mais força que outros. Isso e a passividade com que se aceita que alguém a trabalhar as mesmas horas ganhe duas vezes mais, três vezes mais e até mil vezes mais. Se além de haver um salário mínimo houvesse também um salário máximo o trabalho de todos era mais valorizado.

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