Por baixo

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Minha imaginação é um Arco de Triunfo.


Por baixo passa roda a Vida.


Passa a vida comercial de hoje, automóveis, camiões,


Passa a vida tradicional nos trajes de alguns regimentos,


Passam todas as classes sociais, passam todas as formas de vida,


E no momento em que passam na sombra do Arco de Triunfo


Qualquer coisa de triunfal cai sobre eles,


E eles são, um momento, pequenos e grandes.


São momentaneamente um triunfo que eu os faço ser.


 


 


O Arco de Triunfo da minha Imaginação


Assenta de um lado sobre Deus e do outro


Sobre o quotidiano, sobre o mesquinho (segundo se julga),


Sobre a faina de todas as horas, as sensações de todos os momentos,


E as rápidas intenções que morrem antes do gesto.


 


 


Eu-próprio, aparte e fora da minha imaginação,


E contudo parte dela,


Sou a figura triunfal que olha do alto do arco,


Que sai do arco e lhe pertence,


E fita quem passa por baixo elevada e suspensa,


Monstruosa e bela.


 


 


Mas às grandes horas da minha sensação,


Quando em vez de rectilínea, ela é circular


E gira vertiginosamente sobre si-própria,


O Arco desaparece, funde-se com a gente que passa,


E eu sinto que sou o Arco, e o espaço que ele abrange,


E toda a gente que passa,


E todo o passado da gente que passa,


E todo o futuro da gente que passa,


E toda a gente que passará


E toda a gente que já passou.


Sinto isto, e ao senti-lo sou cada vez mais


A figura esculpida a sair do alto do arco


Que fita para baixo


O universo que passa.


Mas eu próprio sou o Universo,


Eu próprio sou sujeito e objecto,


Eu próprio sou Arco e Rua,


Eu próprio cinjo e deixo passar, abranjo e liberto,


Fito de alto, e de baixo fito-me fitando,


Passo por baixo, fico em cima, quedo-me dos lados,


Totalizo e transcendo,


Realizo Deus numa arquitectura triunfal


De arco de Triunfo posto sobre o universo,


De arco de triunfo construído


Sobre todas as sensações de todos que sentem


E sobre todas as sensações de todas as sensações...


 


 


Poesia do ímpeto e do giro,


Da vertigem e da explosão,


Poesia dinâmica, sensacionista, silvando


Pela minha imaginação fora em torrentes de fogo,


Em grandes rios de chama, em grandes vulcões de lume.


 


 



 


Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993.  - 28.




 



 

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