Várias partes repartidas por coisa nenhuma

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.


 


Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.


 


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Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.


 


Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.


 


Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.


 


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Uma parte de mim


é só vertigem:


outra parte,
linguagem.


 


 


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Traduzir uma parte
na outra parte
— que é uma questão
de vida ou morte —
será arte?


 


 


Poema de Ferreira Gullar


 


 


Alice Alfazema

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