A CRP ainda é a Lei fundamental deste país? A democracia está suspensa? Por onde anda a igualdade de género?

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"...és a maior puta do mundo; pensei que tinha casado com uma mulher séria e casei com uma puta da serra; a mim nunca me deixaste ir ao cú e os outros vão todos; (...); vou-te tirar a casa e no fim mato-te; tenho uma lista de pessoas aquém vou limpar o sebo) em primeiro lugar a ti e és uma mulher morta ".


Extraordinária decisão do TRIBUNAL DA RELAÇÃO DO PORTO, que julgando em recurso um caso de crime de violência doméstica, invoca na argumentação a Bíblia, preceitos da Sharia e o Código Penal de 1886.
Talvez seja altura de oferecer aos Srs Desembargadores um exemplar da CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA PORTUGUESA, de 1976, e lembrar-lhes que em Portugal existe hoje um sistema democrático que legal e politicamente torna insustentável a argumentação anacrónica e inconstitucional que utilizam para justificar a sua decisão.


Extraordinário 'pormaior' do caso: marido traído e amante abandonado concertam-se entre si para agredir a mulher que foi 'de ambos'. Esta história parece inventada, mas foi dada como provada em tribunal.


«Acordam, em conferência, na i.a Secção (Criminal) do Tribunal da Relação do Porto:


«(…) Este caso está longe de ter a gravidade com que, geralmente, se apresentam os casos de maus tratos no quadro da violência doméstica. Por outro lado, a conduta do arguido ocorreu num contexto de adultério praticado pela assistente. Ora, o adultério da mulher é um gravíssimo atentado à honra e dignidade do homem. Sociedades existem em que a mulher adúltera é alvo de lapidação até à morte. Na Bíblia, podemos ler que a mulher adúltera deve ser punida com a morte. Ainda não foi há muito tempo que a lei penal (Código Penal de 1886, artigo 372.0) punia com uma pena pouco mais que simbólica o homem que, achando sua mulher em adultério, nesse acto a matasse. 
Com estas referências pretende-se, apenas, acentuar que o adultério da mulher é uma conduta que a sociedade sempre condenou e condena fortemente (e são as mulheres honestas as primeiras a estigmatizar as adúlteras) e por isso vê com alguma compreensão a violência exercida pelo homem traído, vexado e humilhado pela mulher. Foi a deslealdade e a imoralidade sexual da assistente que fez o arguido X cair em profunda depressão e foi nesse estado depressivo e toldado pela revolta que praticou o acto de agressão, como bem se considerou na sentença recorrida. 
Por isso, pela acentuada diminuição da culpa e pelo arrependimento genuíno, podia ter sido ponderada uma atenuação especial da pena para o arguido X. As penas mostram-se ajustadas, na sua fixação, o tribunal respeitou os critérios legais e não há razão para temer a frustração das expectativas comunitárias na validade das normas violadas
(…)»


 


Processo n.° 355/15.2 GAFLG.P1
Recurso penal Relator: Neto de Moura.


 


No acórdão assinado pelos desembargadores Neto de Moura e Maria Luísa Abrantes (enquanto adjunta).


 


O texto integral do Acórdão do Tribunal da Relação do Porto (violência doméstica, adultério) pode ser lido em: https://jumpshare.com/v/XmGPjJyBg6mJMdehLjp8


 


 


 


Ter em atenção que um dos desembargadores é uma mulher. De referir que estamos em 2017, num país com um Estado laico, segundo a CRP.


 


Nojo.


 


 


 


 


Alice Alfazema


 


 


 


 


 


 

Comentários

  1. Às vezes quando as mulheres integram um grupo "de linchamento" de outra mulher, são totalmente despidas de senso, como de empatia. Nem sei explicar o que isso me provoca! É infinitamente triste.
    Onde fica a evolução das mentalidades, o respeito, a igualdade? Uma coisa é a acção ser repreensível, mas também o deve ser ao contrário! Continuamos a crucificar e queimar mulheres e a aplaudir e deixar em paz com as suas consciências os seus castigadores e tantas vezes violadores. Boa semana!

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  2. Muito triste, muitas vezes são as mulheres quem mais crítica as outras mulheres, é uma situação que não entendo, quanto a este este assunto, algo vai muito mal, vamos ver no que isto vai dar, espero que mais vozes se levantem para mudarmos este cenário.

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  3. Muitos, ainda, têm saudades do tempo em que eram donos das mulheres!

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  4. Não há marialvas só no Ribatejo.

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  5. Parece que são demasiados, infelizmente ainda há mulheres que pensam que isso é "amor". Tristeza.

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  6. Há gente parva em todo o lado, mas espera mais de quem exerce cargos que supostamente deviriam de ser exemplares. É uma vergonha e uma tristeza estas criaturas ficarem impunes perante isto.

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  7. Precisamente, como se já não fosse gravíssimo o acórdão, é co-assinado por uma mulher coisa que está a escapar a muita gente que só fala no pré-histórico juiz.

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  8. Olá Alice,
    Infelizmente, há já muitos anos, que a minha confiança no sistema judicial deste país é quase nula. Se por princípio achava que os juízes deveriam ser politicamente isentos e consequentemente não eleitos, hoje penso que deveriam ir a votos de modo a evitar casos como este. O que constitui um paradoxo, porque sendo eu contra uma justiça populista que emite sentenças ao sabor da opinião pública, vejo-me com vontade de embarcar numa trupe de linchamento contra vários juízes da nação.

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  9. Há maus profissionais em todos os sectores da sociedade, e por vezes estes conseguem estragar o esforço de todos os outros. Espero, entretanto, que esta situação não fique impune.

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  10. https://www.csm.org.pt/2017/10/23/nota-a-comunicacao-social-acordao-do-tribunal-da-relacao-do-porto

    Infelizmente acho que vai ficar. Em Portugal "os juízes em funções nos tribunais superiores não se encontram sujeitos a inspeções classificativas ordinárias embora a promoção...". No melhor dos casos não será promovido, mas pode continuar a proferir sentenças segundo a Constituição de 1886 até se reformar e fazer alarde disso.

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  11. Dão uma no cravo e outra na ferradura, vamos esperar para ver como isto acaba.

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