Há onze anos, quando vim trabalhar para a escola, tinha uma ideia idílica sobre a escola, pensava então que poderia fazer a diferença, que estava ali porque fazia parte de uma equipa. Assim um belo dia, caiu-me pela primeira vez a ficha, estava eu sentada na secretária, num bloco de doze salas, quando uma jovem sai de uma sala e me diz: a professora mandou-me perguntar-lhe por que é que está aqui a trabalhar, estou aqui a trabalhar porque fiquei desempregada, ah, ela disse-me que se eu não quero estudar, depois tenho que arranjar um emprego assim. E eu fiquei a olhar para a miúda com um ar aparvalhado até ela voltar novamente para a aula. Depois mais nada.
Quando pensamos em escola, pensamos em educação, pois é, por lá há muita, há com má e sem má. Temos neste espaço diferentes personalidades, há muita gente boa e gente menos boa, como em todo o lado, dirão alguns e é verdade. Aos bons agradeço o que me dão quando preciso de motivação, quer seja em palavras ou em sorrisos e até em mimos, aos outros agradeço na mesma porque me fazem reflectir em como não quero ser assim.
Não me lembro da primeira vez que tive de lavar as sanitas, algumas até desentupi-las, varrer, lavar, esfregar, carregar baldes de lixo...e voltar ao mesmo, quem tem crianças em casa sabe como é, agora multipliquem isso por mais de oito centenas. Enquanto lavava as sanitas era ainda capaz de ter de retirar as luvas, atender o telefone, ir dar um recado, ou ver outra situação qualquer e depois voltar a calçar as luvas e lavar o resto das sanitas, entretanto as pessoas iam entrando e saindo da casa de banho como se nada fosse.
Num outro momento da minha estadia na escola pedi opinião a uma professora sobre o facto de eu querer entrar na faculdade, ao qual obtive a seguinte resposta: inscreva-se, inscreva-se, que eles agora estão a aceitar toda a gente. E não havia mais nada a dizer. Calei-me. Agora que já terminei a licenciatura estou no bar a abrir carcaças e a por manteiga no pão, não tenho nada a acrescentar pois tenho uma faca com uma serrilha muito boa e a manteiga é dos Açores.
Num outro dia ouvi alguém dizer que estava a encorajar os miúdos a estudarem para depois não irem varrer ruas. Portanto esse tipo de emprego é um castigo para quem não estuda, o valor do trabalho é uma coisa mítica, no sentido de que valorizamos o prestigio e não a acção em si. Por isso penso que o livro Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago, deveria ser de leitura obrigatória na escola. De certo que mudaria muitas mentes.
Mais uma vez... quando estávamos a falar sobre o valor do ordenado mínimo, de como era difícil viver com tal quantia, alguém me diz: e acha que para nós não é difícil? respondi que no mínimo alguém tem de pagar trezentos euros de casa e o que lhe sobra é muito pouco para as despesas básicas de sobrevivência...
Sei por verificação ao longo dos anos em que estou neste mundo que as pessoas com menos posses são as mais solidárias, são capazes de repartir e queixam-se menos das agruras da vida. Se alguém se sentir lesado por aquilo que escrevi, pensasse duas, três vezes antes de me dizer, porque em mim essas palavras criaram mossa. Olhar para além de, é um exercício que se aprende com uma certa facilidade.
Existe uma desvalorização profissional que se acentua de ano para ano, olha-se assim para esta profissão como algo dispensável. Um cuidador nunca é um ser dispensável. Esta visão redutora tem de ser alterada. Se eu poderia arranjar um outro emprego? Poderia, mas não era a mesma coisa. Não teria o carinho dos miúdos, os risos fáceis nem aquela azafama de vida que acredita no futuro, a isso chama-se: Esperança.
Alice Alfazema
Oh Alice, caraças, que grande post! Que murros no estômago se podem sentir lendo palavras assim.
ResponderEliminarCorajosa Alice, lúcida Alice.
Tomara se sinta recompensada pelo que dá de si a esse trabalho. E saiba que acho o seu trabalho um trabalho duro, valioso, importantíssimo.
Apetece-me terminar agradecendo porque há que agradecer a quem, por tão pouco dinheiro e com tão fraco reconhecimento, faz tanto pelas nossas crianças.
Um dos problemas de muitos professores é o "patamar" (em tom depreciativo) em que se querem colocar. Tal deve-se ao facto de em Portugal sempre ter sido considerada uma elite. A prova disso é que quando as coisas começaram a mudar vimos o que aconteceu... Depois há muitos "licenciados em ensino" e poucos professores :-)
ResponderEliminarAdorei o texto!
ResponderEliminarQuem escreve assim só pode ser uma pessoa com uma visão muito inteligente da vida! Parabéns
ResponderEliminarE a esperança nunca se pode perder.. Força, coragem!
ResponderEliminarBeijinhos
É curioso que talvez um dia destes conte como foi quando decidir fazer o que fiz para ganhar algum dinheiro quando estive desempregado. "Ao que o teu filho se dispõe a fazer para ganhar dinheiro", disse uma tia à minha mãe. Como se ganhar dinheiro de forma honrada fosse motivo para ter alguma vergonha. No entanto anda por aí muito ladrão, alguns até candidatos a câmaras municipais (tenho um aqui condenado a quatro anos de cadeia e tudo) e andam de fato e gravata e alguém lhes vê vergonha na cara? Eu não vejo! Então por que é que eu, a trabalhar de forma honrada, deveria de ter vergonha de trabalhar para ganhar dinheiro para sobreviver?
ResponderEliminarHá umas semanas, uma colega de trabalho, bem mais nova que eu, perguntou-me: "Não queres vir fazer um curso superior comigo"? Na verdade eu achei aquilo muito fofo, mas disse-me que não tinha a mais pequena paciência para voltar a estudar, para perder anos da minha vida, em algo que depois não daria qualquer utilidade!
As coisas mudaram muito nos últimos anos, mas mudaram mesmo muito. Eu hoje ganho menos do que ganhava em 2008 e vejam o aumento do custo de vida, e vejo engenheiros a saírem das universidades e a ganharem pouco mais 600€. Vejo imensa gente a ganhar mesmo muito mal, vejo muita gente a ganhar menos do que o "Salário digno" que é de 783€. Tal como já via ali no início do milénio a frustração da namorada da altura que não arranjava colocação na área, e me disse que para os trabalhos que arranjava não precisava ter perdido quatro anos da sua vida a estudar coisas que lhe serão inúteis ter aprendido.
Já não faz sentido dizer a um filho "se não estudares vais ser um pedinte", pois neste admirável mundo novo, com ou sem curso, agora, todos somos pedintes! Mas parece que ainda ninguém viu isso.
E depois estão todos iludidos, porque daqui por vinte ou trinta anos, com o advento da robotização - que está já aí! metade da população mundial vai toda para o desemprego! Somos todos dispensáveis, mas as pessoas preferem enfiar a cabeça na areia como a avestruz, a ver o que se está a passar.
Muitos parabéns. Todos os trabalhos são dignos, mas, em Portugal, só os doutores são condecorados. Não temos pedreiros, carpinteiros, eletricistas e tantas outras profissões, que mereçam uma distinção!
ResponderEliminarGrande verdade👏🏻😢
ResponderEliminarOlá !alice 🙃 Eu já li o livro que refer no seu artigo.
ResponderEliminarPelo menos há 3anos e o filme e simplesmente adorei e recomendo a muitas pessoas...!
Obrigada, UJM.
ResponderEliminarApesar de tudo o que aqui descrevi sinto-me muitas vezes recompensada. No entanto, existem outros momentos em que me sinto abaixo do nível do mar, ou melhor, lá dentro, com a água já nos pulmões, aí busco outras saídas e muitas vezes vou até ao seu blogue onde também lhe quero agradecer, pois faz a diferença, do pensamento retrógrado, e redutor que quero contrariar e raramente consigo. Essa é a minha maior frustração e talvez a minha maior luta, onde oiço com facilidade: não ligues, ou esquece, mas não podemos passar a vida a esquecer, temos de actuar, precisamos é de conhecer os instrumentos ideais para isso...e não ter medo.
Entretanto, neste ano lectivo que agora começa vou dar de novo o meu melhor.
Beijinhos
Tens razão, este é um problema cultural, existe em vários sectores da sociedade, não só no ensino, mas o grande problema aqui é: este é o sítio onde se formam pessoas, apesar de muita gente referir que é em casa, eu penso que neste espaço é onde se moldam as mentes, muitas vezes para a vida, assim não deveria de haver lugar ao preconceito, nem a paradigmas. :)
ResponderEliminarObrigada Maribel, provavelmente sabe do que falo/escrevo.
ResponderEliminarObrigada Martinha.
ResponderEliminarEu seguro sempre a esperança na mão direita, pois é aquela que uso mais.
ResponderEliminarObrigada Ana.
Beijinhos
É uma boa narrativa, dura como a realidade.
ResponderEliminarÉ isso que eu gostaria de começar a ver, mas as pessoas movem-se segundo os seus interesses e condecorar um pedreiro e restantes profissões de igual valor na sociedade, não trará mais-valias, daí não vermos nada no nosso dia-a-dia.
ResponderEliminarO preconceito é um cancro na nossa sociedade, espero que as novas gerações façam por acabar com essas situações tais como as que falas, mesmo no seio da família existe essa ideia enraizada.
ResponderEliminarQuanto ao futuro falamos depois.
Não vale a pena chorar, temos é de agir, as lágrimas não fazem a diferença, mas as acções movem o mundo.
ResponderEliminarAinda ontem contaram-me uma história que me fez logo lembrar deste teu texto. Alguém resolveu dar uma esmola a uma pessoa "muito mal vestida", coitada, e que por acaso, valha isso o que valha, até é licenciada em restauro de edifícios (embora a minha amiga me diga que isso não é muito diferente de trolha) só porque as pessoas continuam em insistir em julgar pelas aparências.
ResponderEliminarCara Alice,
ResponderEliminarVim aqui ter ao seu blog por acaso. Também para mim o trabalho mais difícil que tive de fazer foi lavar sanitas; no meu caso foi num restaurante. Tenho muito respeito pelo seu trabalho. A educação das crianças é o trabalho mais nobre que há, e é muito bonito que goste de estar rodeado por elas mesmo quando tem de lidar com muita má educação delas.
Uma vez perguntei a um jovem auxiliar num hospital, que tinha que trocar fraldas a doentes acamados, como tinha coragem para aguentar aquele cheiro. Ele disse-me que já se tinha habituado, e que havia cheiros piores.
Se já é funcionária pública e entretanto se licenciou, pode tentar passar para uma secretaria de uma escola, não? Vai havendo concursos, de vez em quando... Ou pode aproveitar os tempos mortos para estudar mais, se tiver interesse...
Felicidades para a senhora.
Obrigada Ana, pelo comentário motivador, quanto aos concursos isso são outros quinhentos.
ResponderEliminarBoa semana