O João Pedro é um rapazinho dos seus quatro anos, de pele muito branquinha, e muito traquinas. O João Pedro foi com os avós à praia, levou o seu baldinho e a pá. A avó do João Pedro também é muito branquinha e tem um fato de banho com flores cor-de-rosa. O avô do João Pedro é um homem que usa um calção vermelho e tem um bronze duvidoso, é bronzeado até um pouco acima dos cotovelos, um pouco na cara e pronto, acabou o bronzeado.
Os avós do João Pedro têm dois chapéus de sol muito coloridos e um corta vento branco. Puseram o corta vento ao redor dos chapéus de sol e colocaram-se os três dentro daquele território, longe dos olhares alheios. O João Pedro brincou durante muito tempo ali naquele espaço, de vez em quando ouvia-se a areia a bater no tecido do corta vento, enquanto a avó gritava:
- Está quieto João Pedro.
- Pára com isso João Pedro.
- Daqui a nada levas uma palmada João Pedro.
- Não levantes areia João Pedro.
- Estás habituado a que te façam as vontades todas, não pode ser João Pedro.
- João Pedro está quieto.
Entretanto o João Pedro foi com os avós até à água e voltou sequinho para aquele espaço mágico, sequinho, sequinho, sequinho...
E voltou-se a ouvir:
- Está quieto João Pedro.
- Pára com isso João Pedro.
- Daqui a nada levas uma palmada João Pedro.
- Não levantes areia João Pedro.
- Estás habituado a que te façam as vontades todas, não pode ser João Pedro.
- João Pedro está quieto.
Tenho a certeza que o João Pedro vai guardar para sempre no seu grande coração este maravilhoso dia na praia com os avós. Vai lembrar-se que ninguém se levantou para jogar à bola com ele. vai recordar-se que nem fizeram castelos na areia. Que nem chegou a saber que ali pertinho, pertinho havia rochas com as criaturas do mar que ele só vê na televisão, e que os peixes são capazes de nadar até à beirinha da água.
- Ó João Pedro ainda estás aí?
Alice Alfazema
Brilhante, Alice!
ResponderEliminarMas, numa coisa, eu discordo.
«Vai lembrar-se que ninguém se levantou para jogar à bola com ele. vai recordar-se que nem fizeram castelos na areia. Que nem chegou a saber que ali pertinho, pertinho havia rochas com as criaturas do mar que ele só vê na televisão, e que os peixes são capazes de nadar até à beirinha da água».
Claro que tudo isto vai ter muita influência na vida do João Pedro, mas ele não vai recordar nada disso. Vai viver até ao fim convencido de que não existiram, nem existem, melhores avós do que os dele. É essa a verdadeira tragédia da nossa vida...
Obrigada, Cristina.
ResponderEliminarNo entanto, eu continuo a pensar que ele depois de conhecer outras vidas vai reflectir que poderia ter tido melhor, muito melhor...todavia para quem ama é difícil reconhecê-lo. :)
Possível, mas bastante raro, Alice. Normalmente, vemos e aceitamos o mundo como no-lo deram a conhecer.
ResponderEliminarLeio muito sobre Psicologia. Li um livro de dois psicólogos americanos que relatavam experiências com os seus pacientes. Um destes na sua primeira consulta descreveu os seus problemas. No decorrer da terapia, verificou-se que tinha tido um pai muito violento, que lhe batia e o humilhava também com palavras. Nessa primeira consulta, o psicólogo perguntou-lhe: que tipo de pessoa era o seu pai? Depois de refletir uns segundos, o homem respondeu: o meu pai era boa pessoa.
Esta é a regra, não a exceção.
Possível, mas bastante raro, Alice. Normalmente, vemos e aceitamos o mundo como no-lo deram a conhecer.
ResponderEliminarLeio muito sobre Psicologia. Li um livro de dois psicólogos americanos que relatavam experiências com os seus pacientes. Um destes na sua primeira consulta descreveu os seus problemas. No decorrer da terapia, verificou-se que tinha tido um pai muito violento, que lhe batia e o humilhava também com palavras. Nessa primeira consulta, o psicólogo perguntou-lhe: que tipo de pessoa era o seu pai? Depois de refletir uns segundos, o homem respondeu: o meu pai era boa pessoa.
Esta é a regra, não a exceção.
Sim, isso acontece, a pessoa responde que era boa pessoa, mas sem reflectir muito ou por pensar que aquilo por que passou era o melhor que lhe poderiam dar, muitas vezes as vítimas julgam-se culpadas...e tentam desculpar o agressor, porque existem laços emocionais muito fortes que são difíceis de quebrar. Há muitos factores que podem levar a decisões que quem assiste pensa ser inapropriado, ou que faria diferente...um outro exemplo, uma mulher que fuma, mas que é pobre, porque não gasta ela o dinheiro de outra forma? E ela pode responder: porque o cigarro a relaxa e a faz esquecer das mazelas da vida. São padrões, somos todos feitos deles, uns conseguem sair, poucos, outros ficam presos nesse circulo uma vida inteiro.
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