Faz este ano precisamente dezassete anos que a minha mãe morreu, era Maio, o Dia da Mãe calhou num domingo dia sete e ela foi na terça dia nove. Foi levada pelo sono da tarde, nem uma expressão de dor, apenas ficou o frio extremo que eu jamais pensei existir.
Os meus avós eram pescadores, o meu pai também, pessoas habituadas ao risco e conhecedoras da morte. A minha mãe tinha uma doença incapacitante que a podia devorar a qualquer momento, no entanto ela era uma animadora de espíritos, isso fascinava-me. Como podemos viver em consciência lado a lado com a Vida e a Morte? Afinal não é isso o que fazemos todos os dias sem o notarmos? Sabemos apenas que existimos.
A consciência da sua finitude e uma fé imensa davam-lhe uma energia e um amor incondicional àquilo a que vulgarmente se chama de Amor pela Vida. A sua vontade férrea naquilo que queria conhecer, as coisas que não ficaram por dizer. Os abraços que demos e as vezes que chorámos como forma de alívio. Não deixámos nada para amanhã, foi tudo feito num hoje único. Vivemos coisas simples, apreciámos coisas simples, coisas banais, como o barulho da chuva, a cor de uma joaninha, a surpresa de ver a erva a crescer. Rimos muito, rimos quando havia motivo para rir e rimos também quando nos apetecia chorar, quando nos apetecia desistir.
A morte faz balancé na vida. Para cima, para baixo, para cima, para baixo, mais rápido, mais devagar, parado, a começar, a acabar. O que fizemos juntas nesse balancé ficou em mim, às vezes vem de mansinho, em sonhos, em cheiros, em paladares. Não são coisas palpáveis, são coisas minhas.
Texto meu publicado no Delito de Opinião
Alice Alfazema
É comovente este texto e eu compreendo-o tão bem que quase o sinto como meu! Obrigada por esta partilha.
ResponderEliminarAinda bem que viveram tantas coisas e partilharam tantos afectos...
É o que fica guardado na nossa memória que mantém vivos aqueles que amamos. Só assim a vida vale a pena!
Fez, dia 27 de Maio, seis meses que a minha mãe partiu...
Também adormeceu assim, sem dor (que dores tinha tantas, há mais de 40 anos), nos braços da minha irmã mais velha e deixou-nos um pouco perdidas e incrédulas! Eu achava que ainda tínhamos tanto tempo para viver em conjunto e a minha mãe ainda tinha tanto para nos ensinar!
Quer tenhamos 20, 30 ou mais de 60 anos (como eu), a nossa mãe é sempre um porto de abrigo. Ficam as memórias do muito que partilhámos e uma saudade que por vezes dói tanto...
Mena