Março dia 1 - Mulheres e patroas


 


Ilustração Elaheh Taherian


 


Há homens que têm patroa. Ela sempre está em casa quando ele chega do trabalho. O jantar é rapidamente servido à mesa. Ela recebe um apertão na bochecha. A patroa pode ser jovem e bonita, mas tem uma atitude subserviente, o que lhe confere um certo ar robusto, como se fosse uma senhora de muitos anos atrás.

Há homens que têm mulher. Uma mulher que está em casa na hora que pode, às vezes chega antes dele, às vezes depois. Sua casa não é sua jaula nem seu fogão é industrial. A mulher beija seu marido na boca quando o encontra no fim do dia e recebe dele o melhor dos abraços. A mulher pode ser robusta e até meio feia, mas sua independência lhe confere um ar de garota, regente de si mesma.

Há homens que têm patroa, e mesmo que ela tenha tido apenas um filho, ou um casal, parece que gerou uma ninhada, tanto as crianças a solicitam e ela lhes é devota. A patroa é uma santa, muito boa esposa e muito boa mãe, tão boa que é assim que o marido a chama quando não a chama de patroa: mãezinha.

Há homens que têm mulher. Minha mulher, Suzana. Minha mulher, Cristina. Minha mulher, Tereza. Mulheres que têm nome, que só são chamadas de mãe pelos filhos, que não arrastam os pés pela casa nem confiscam o salário do marido, porque elas têm o dela. Não mandam nos caras, não obedecem os caras: convivem com eles.

Há homens que têm patroa. Vou ligar pra patroa. Vou perguntar pra patroa. Vou buscar a patroa. É carinho, dizem. Às vezes, é deboche. Quase sempre é muito cafona.

Há homens que têm mulher. Vou ligar para minha mulher. Vou perguntar para minha mulher. Vou buscar minha mulher. Não há subordinação consentida ou disfarçada. Não há patrões nem empregados. Há algo sexy no ar.

Há homens que têm patroa.
Há homens que têm mulher.
E há mulheres que escolhem o que querem ser.


 


 


Martha Medeiros, A mulher e a patroa, 1999.

Comentários

  1. Adorei! Adorei! Adorei!
    "E há mulheres que escolhem o que querem ser.", acho esta escolha fundamental, ter a certeza de quem somos e do que queremos ser.

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  2. Cada vez há menos patroas. As patroas quiseram igualdade, começaram a vestir calças e também quiserem sair das cavernas para ir caçar. Só que, sem se aperceberem, o que arranjaram foi uma enorme carga de trabalhos. Para todos! Para os maridos, para os filhos, mas essencialmente para elas. O casamento faliu completamente (70 divórcios para cada 100 casamentos). As crianças deixaram de poder ter educação (agora são estranhos que os educam). E as mulheres passaram, além a terem de trabalhar no emprego, de continuar a fazer o que já faziam na caverna (comer, lavar, passar...e limpar o cu aos maridos)

    (qualquer semelhança com um ponto de vista conservador ou machista foi mera coincidência)

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  3. Sim as escolhas devem partir sempre de nós.

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