Parecenças

Mais uma vez, Silvina saiu tarde do trabalho. Regressou a casa pelo caminho que habitualmente percorria, pensando que algo se estava a passar com ela. Se entrava mais cedo ao serviço e saía cada vez mais tarde, porque razão não estava a dar conta do trabalho que tinha para fazer? O pior era que em casa lhe sucedia o mesmo. Não conseguia tratar de tudo o que tinha por resolver. O que a incomodava era ter a perfeita noção de que antigamente conseguia fazer muito mais. Agora sentia-se lenta. Lenta a pensar. Lenta a agir. Desesperava-se por não ter mais aquele desembaraço que lhe era característico. Lembrava-se de como costumava ser sempre a primeira a concluir os trabalhos da escola; de como arrumava a casa em pouco tempo; de como era ágil em tudo o que fazia.


 


Silvina caminhava devagar questionando-se sobre as razões da mudança que sentia nela. Não era assim tão velha. Não se sentia doente. Até andava bem-disposta. Não percebia. Quase a chegar a casa pensou que talvez devesse ir ao médico e pedir para fazer uns exames de diagnóstico. Sim. Era isso que iria fazer. Ao menos para ficar descansada.


 


Tinha acabado de tomar a decisão quando chegou à porta do prédio. Abriu-a, entrou e chamou o elevador. Lá dentro, olhando-se no espelho que forrava o fundo do cubículo, viu refletida a imagem de um caracol.


 


Texto retirado do blogue À Esquina da Tecla.


 


Alice Alfazema

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