Uma pergunta por dia: Ainda se lembram disto?

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Todas as noites toca um telefone na Lua.


Sou eu, sou eu a marcar o número automático dos poetas de hoje


para gritar cá de baixo em código de astros:


Está lá? Está lá? Aqui Terra, zero, zero, zero, zero, zero.



  1. O. S! Fome, ódio de mil patas, tiranos com cutelos de cinzas,


bandeiras de pele humana, olhos furados de cardos,


mortos que só vêem o céu através dos caminhos das raízes


— e as mães a baterem nos filhos


para lhes ensinarem a instrução primária das lágrimas.


 


Aqui escravos, preguiça, azorragues de chumbo derretido,


exportação de tédio dos palácios dos ricos, carregamentos de bocejos,


suor em latas para discursos de demagogos,


mordaças com restos de bocas de cadáveres,


fúria de túmulos, guerra, raptos, incestos, automóveis imbecis,


saques, mandíbulas nos olhos a roerem o azul


— e os dedos de súbito de ferro-em-brasa nos seios das mulheres,


lodo de sol aparente


que continuam a ser deusas nos jantares  de cerimónia


com os colos luzidios das horas empertigadas.


 


Aqui planeta zero, zero, zero, nada, torres de musgo,


punhais a rasgarem noites em vez de chagas,


países de arame farpado, vulcões de sangue,


batalhas trespassadas do frio dos esqueletos concretos


— e ainda por cima a carne das mulheres só é real um momento,


um momento apenas


e em vão tentamos fixá-la com um sopro de frio


no rasto deste defunto com um caixão às costas


cheio de corações vivos.


 



  1. O. S.! S. O. S.!


 


Fantasmas de todos os planetas! Fantasmas de todos os planetas!


Saltai em pára-quedas no silêncio que há por dentro do silêncio


e vinde salvar-nos!


 


Vinde salvar os homens


para aqui abandonados ao pesadelo de si mesmos,


só a serem homens,


homens apenas,


homens sempre,


de manhã até à noite,


semi-homens,


infra-homens,


super-homens,


ex-homens...


 


E fartos, fartos, fartos, fartos, fartos,


desta desistência


de já nem quererem ser deuses!


 


Nem de transformarem os cavalos em relâmpagos!


 


 


 


José gomes ferreira


 


 


 


Uma pergunta até ao final do ano, quem quiser responder esteja à vontade.


 


Alice Alfazema

Comentários

  1. O meu durou até muito tarde, quando já ninguém os tinha. Adorava o toque, nada que se compare com o toque dos actuais.

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