Lembrança

 


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 Magoa-me a saudade
do sobressalto dos corpos
ferindo-se de ternura
dói-me a distante lembrança
do teu vestido
caindo aos nossos pés

Magoa-me a saudade
do tempo em que te habitava
como o sal ocupa o mar
como a luz recolhendo-se
nas pupilas desatentas

Seja eu de novo tua sombra, teu desejo
tua noite sem remédio
tua virtude, tua carência
eu
que longe de ti sou fraco
eu
que já fui água, seiva vegetal
sou agora gota trémula, raiz exposta

Traz
de novo, meu amor,
a transparência da água
dá ocupação à minha ternura vadia
mergulha os teus dedos
no feitiço do meu peito
e espanta na gruta funda de mim
os animais que atormentam o meu sono

Mia Couto, in 'Raiz de Orvalho


 


 


Alice Alfazema


 


 

Comentários

  1. Uma lembrança que nos deixa com água na boca e como se não bastasse com um poema lindo do genial Mia Couto. Que recordações assim perdurem e que venham realidades idênticas.

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  2. Fico contente que tenhas regressado.

    Um abraço

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