Andei muito, sempre apressado, ciente de que, mesmo correndo, a sociedade me deixaria para trás. E assim é. Das maneiras à mecânica, dos biplanos aos milagres da Medicina, das conversas de café às amizades do Facebook, foi incrível a reviravolta, devem ser muitos os que, como eu, ressentem uma desagradável sensação de desnorte.
Sou de uma das gerações criadas na bela ilusão do ideal solidário, de amanhãs tão soalheiros que, tribal ou mundial, nenhuma guerra teria horror bastante para ensombrá-los.
Inesperadamente, as sombras criadas pelas hecatombes depressa esqueceram, e embora nos amanhãs de muitos o sol nem sempre brilhe, para quase todos são mais frequentes as abertas.
Mas porque assim tinha que ser, ou Deus assim mandou, foi-se-nos o ideal solidário e deixámos que viesse ao de cima o conforto da indiferença, trocámos o desagrado do dia-a-dia pelos arcos-íris da realidade virtual.
Desse modo pôde dias atrás acontecer que, num eléctrico de Amsterdam, o destravado que puxou duma pistola tivesse de desatar aos gritos, porque os passageiros, entretidos todos eles com os seus smartphones, não se davam conta do assalto.
Alice Alfazema
Já li contos de Rentes de Carvalho e tenho um livro na prateleira par ler.
ResponderEliminarÉ pouco conhecido em Portugal.
Abraço
Ainda, não li nenhum livro dele, mas espero fazê-lo, no entanto leio o blogue e outras opiniões, sempre interessantes. Um pensamento acutilante e deveras lúcido.
ResponderEliminarAbraço