...[o] mundo aí está, e nele, imediatamente visíveis, aí estão os efeitos da aplicação da grande utopia neoliberal: não só a miséria e o sofrimento de uma fracção cada vez maior das sociedades economicamente mais avançadas, o aumento extraordinário das diferenças entre os rendimentos, o desaparecimento progressivo dos universos autónomos de produção cultural, cinema, edição, etc., ..., e portanto, a prazo, dos próprios produtos culturais, através da intrusão crescente de considerações de ordem comercial, mas também e sobretudo a destruição de todas as instâncias colectivas capazes de se oporem aos efeitos da máquina infernal, na primeira linha das quais se encontra o Estado, depositário de todos os valores universais associados à ideia de público, e a imposição, por toda a parte, nas altas esferas da economia e do Estado, ou dentro das empresas, de uma espécie de darwinismo moral que, juntamente com o culto do winner, com a sua formação em matemáticas superiores e em "desportos radicais", instaura a luta de todos contra todos e o cinismo como normas de todas as práticas.
Bourdieu, 1998:138
Alice Alfazema
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