Vergonha

Há coisas que nos ficam na mente, e por mais que o tempo corra não apaga essas memórias. A primeira vez que fui com o meu filho ao jardim zoológico o miúdo teve a primeira decepção da vida dele, pois não havia pradarias, os leões e os outros animais não corriam, tal como ele vira nos inúmeros documentários sobre a vida selvagem. A mim não me ocorrera dizer-lhe que naquele sítio onde iríamos ver os animais selvagens a vida era diferente daquilo que se via na televisão. Mas o que me impressionou mais nesse dia foi enfrentar o olhar do Gorila, olhos nos olhos, baixei os olhos e senti vergonha. Os olhos da cor dos meus perguntaram-me: para onde estás a olhar? que fiz eu para estar aqui? achas-me diferente de ti? este planeta é nosso? Tive que sair dali porque não aguentava aquela fala silenciosa, aquele olhar ficou gravado nas minhas recordações. Eu não tinha resposta, apenas a vergonha existia em mim. Não consigo despir-me dela.


 


Alice Alfazema

Comentários

  1. Texto lindíssimo.


    Por acaso, também me ficou na memória a apatia dos leões e dos tigres, da minha primeira visita a um zoo. Não era muito pequena, devia ter uns 11 anos. E também me lembro de um elefante, no zoo de Lisboa, que fazia tocar uma sineta, depois de se lhe dar uma moeda. Não sei se ele ainda existe. Pôs-me triste. Cheguei a dar-lhe uma moeda, para o ver a abanar a sineta, como toda a gente fazia. Mas fiquei triste, na mesma.

    Regressei ao zoo, mais tarde, adulta, e pus-me a observar o elefante. Desta vez, não lhe dei nenhuma moeda. Mas ele tornou a pôr-me triste.

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  2. Eu também fico assim, quando vejo os golfinhos e ouço as gargalhadas em volta, penso no quanto eles perdem por não nadarem no mar em liberdade e o quando somos egoístas por permitirmos que existem vidas vividas assim.

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