Como o tempo é de comer sardinhas deixo-vos aqui um pequeno texto que fiz sobre a pesca do cerco, quando comerem o peixe lembrem-se que ele não vem das bancadas do hiper ou de um outro qualquer lugar, mas sim daquele mar lindo que temos e que é pescado por gente que sabe muito de suor e de lágrimas.
A pesca de cerco é uma arte que se enquadra no âmbito de processos e técnicas tradicionais. Estão a ela associados saberes, objetos e lugares. Esta arte manifesta-se ao longo da costa portuguesa, tem no entanto algumas variações entre lugares. Assim, a sul do Tejo as embarcações são de menores dimensões e muito diferenciadas nas suas características. Na região norte podemos encontrar embarcações mais recentes, enquanto no Algarve a frota é bastante envelhecida. Esta atividade é levada sobretudo para a captura da sardinha, pode no entanto capturar outras espécies, tal como a cavala, o carapau e a sarda. No continente, é feita nas águas costeiras da plataforma continental, faz-se ao longo do ano e a sua atividade é regulamentada por legislação nacional. Geralmente as embarcações são pequenas comunidades familiares que mantêm o seu saber no seu núcleo.
Dantes as docas encontravam-se repletas dessas embarcações, entretanto com a modernização das técnicas de pesca, a globalização do comércio e as exigências das cotas pesqueiras feitas pela UE, houve uma drástica diminuição nas frotas pesqueiras. Apesar das adversidades encontraram-se caminhos para manter a atividade. Tais como, a criação de projetos certificados, entre eles a conserva artesanal de pescado e a gastronomia como oferta turística. São exemplo os festivais da sardinha, os petiscos, entre outros. As histórias de vida vêm também enriquecer este património.
As viagens para a captura do peixe, têm a duração de 12 horas e fazem-se próximo do porto de partida. Esta pesca divide-se em quatro etapas, a “ largada da rede, viragem da retenida, alagem da rede e transbordo do peixe”. O Mestre é o responsável pela embarcação e cabe-lhe decidir e efetuar o lance de pesca. As embarcações mais pequenas são designadas por rapas ou tucas e as de maior dimensão são as cercadoras e as traineiras. As cercadoras utilizam uma pequena embarcação auxiliar a que se dá o nome de chalandra ou chata. A frota só está autorizada a pescar “ ¼ de milha de distância da costa, e apenas em profundidades superiores a 20 metros”.
Aos lances podem acontecer duas coisas: slipping ou transbordo. O slipping corresponde à libertação deliberada da captura, no entanto esta manobra é feita de modo a que o peixe nunca saia da água, o que não acontece noutras artes. Existe também a partilha de captura entre embarcações, exemplo disso são as chamadas “enviadas” existentes em Sesimbra que “ transportam a captura de um lance para o porto de desembarque enquanto a traineira prossegue a pesca”. Sendo a pesca de cerco uma atividade tradicional e de interesse nacional, esta atividade enquadra-se na diversidade cultural e pode garantir o desenvolvimento sustentável. Existe uma correlação entre as comunidades na produção e recriação de modos de vida, que de algum modo contribuíram para a sua salvaguarda e tomada de consciência das gerações futuras.
Deixo-vos um video para que possam apreciar esta arte.
Ainda ontem se fez uma sardinhada na minha terra mas,como eu não gosto de sardinhas,comi uma boa febra assada com feijão verde.
ResponderEliminarUm tratado sobre a pesca de cerco. Gostei e também gosto de comer sardinhas assadas, a pingar, no pão, como se comia na minha terra.
ResponderEliminarAbraço
valorizo muito esta arte, tenho memórias felizes acerca disto. Ontem, comi sardinhas até não mais poder, dessas que pingam no pão e que comemos à mãoem que fica tudo perfumado, cabelo, roupa...assim é que se faz a verdadeira sardinhada
ResponderEliminarUm abraço.
Também não é mau, mas ainda assim prefiro as sardinhas. Eu quando era miúda, também não gostava de sardinhas, as espinhas...com o tempo passou-me
ResponderEliminarHum, Já sinto o cheiro.
ResponderEliminarAlice, parabéns! Excelente contributo para a preservação e divulgação do nosso património!
ResponderEliminarObrigada, Miguel, talvez eu tenha de ir mais à doca e reunir mais material...
ResponderEliminarUm abraço