Meninas e meninos


 


Pintura de Alyona Krutogolova




 


Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino
que carregava água na peneira.

A mãe disse que carregar água na peneira


Era o mesmo que roubar o vento e sair


correndo com eles para mostrar aos irmãos.



A mãe disse que era o mesmo que
catar espinhos na água
O mesmo que criar peixes no bolso.



O menino era ligado em despropósitos.




Quis montar os alicerces de uma casa sobre orvalhos.




A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio
do que do cheio.
Falava que os vazios são maiores
e até infinitos.



Com o tempo aquele menino
que era cismado e esquisito
porque gostava de carregar água na peneira


Com o tempo descobriu que escrever seria


o mesmo que carregar água com a peneira



No escrever o menino viu
que era capaz de ser
noviça, monge ou mendigo
ao mesmo tempo.



O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.


 


Foi capaz de interromper o voo de um pássaro o


botando ponto no final da frase.


 


Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.



O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor!
A mãe reparava o menino com ternura.



A mãe falou:
Meu filho você vai ser poeta.




Você vai carregar água na peneira a vida toda.


 


Você vai encher os
vazios com as suas peraltagens


 


e algumas pessoas
vão te amar por seus despropósitos. 


 






Manoel de Barros




 


Alice alfazema

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