
Ilustração Ana Afonso
"É impossível que o tempo actual não seja o amanhecer doutra era, onde os homens signifiquem apenas um instinto às ordens da primeira solicitação. Tudo quanto era coerência, dignidade, hombridade, respeito humano, foi-se. Os dois ou três casos pessoais que conheço do século passado, levam-me a concluir que era uma gente naturalmente cheia de limitações, mas digna, direita, capaz de repetir no fim da vida a palavra com que se comprometera no início dela. Além disso heróica nas suas dores, sofrendo-as ao mesmo tempo com a tristeza do animal e a grandeza da pessoa. Agora é esta ferocidade que se vê, esta coragem que não dá para deixar abrir um panarício ou parir um filho sem anestesia, esta tartufice, que a gente chega a perguntar que diferença haverá entre uma humanidade que é daqui, dali, de acolá, conforme a brisa, e uma colónia de bichos que sentem a humidade ou o cheiro do alimento de certo lado, e não têm mais nenhuma hesitação nem mais nenhum entrave."
Miguel Torga, Diário, 1942.
Alice Alfazema
Grande citação, Alice. Parabéns pela escolha.
ResponderEliminarGrande Miguel Torga, sempre actual.Gostei.
ResponderEliminarUm abraço
miilay
As palavras vão e voltam, os tempos também.
ResponderEliminarHá palavras que nunca morrem.
ResponderEliminarBom fim de semana, um abraço.