Entre a poesia e a floresta e talvez a primavera


 


Hoje comemora-se o dia da floresta e o dia da poesia, e parece-me que quando eu era criança se comemorava a primavera... 


 


( Pego neste pedaço de planeta - aqui talvez desde o princípio do mundo.)




Chamo-lhe pedra


e apalpo-a


para ter a certeza de que existo


- ouvir nos dedos o coração do frio.




Pedra.




E porque não pierre?


Talvez mais exacta, 


mais aquém de ser nuvem.




Pierre




Ou stone (palavra com menos pele).


E porque não sten? ( do país da neve rangida).


Ou pierra 


Ou outra palavra qualquer inventada.




Stona


Pierta


Strena


Pirra




Voz triturada,


rasgar de dentes,


guincho da primeira boca,


cabeça de saúrio esmagada,


som de tambor forrado de pele humana


tocado a pontapé,


imagem arremessada dos olhos do Sol,


lágrima dura, 


soco de mãos sem dedos,


vento sólido,


caveira com ideias nos olhos,


bicho imperfeito


pedra, em suma,


embora a palavra pedra me pareça um som demasiado voado,


com leveza de asas,


às vezes até me soa a bruma.




Mas habituei-me a dizê-la


como quem vê de longe


a morte ainda embalsamada viva


de uma estrela.






José Gomes Ferreira, Poesia VI








Alice Alfazema

Comentários

Enviar um comentário