Olhei para o espelho e não me reconheci, as rugas e os cabelos brancos invadiram o meu corpo. Não tenho memória de alguma vez ter tido férias, nem um único dia. Os meus dias arrastam-se nos infindáveis afazeres domésticos, é como se a minha essência tivesse fugido para longe. Do futuro nada prevejo. Os anos passaram e os sonhos de menina desbotaram, por mais que eu queira não sei onde arranjar forças para continuar a olhar-me no espelho. Talvez eu até tenha sorte, pelo que leio nos jornais. No entanto há esta violência muda que sinto todos os dias. O peso dos meus braços, a dor crónica e o cansaço de uma vida que é sempre igual.
*este retrato pretende ilustrar situações que por serem banais não se incluem num estado de violência, no entanto a violência manifesta-se de diversas formas e esta é uma delas. É descrito na primeira pessoa tentando dar voz a quem não o consegue fazer.
Alice Alfazema
Alice,
ResponderEliminarNão sei se este texto a representa a si, se representa as mulheres em geral que vivem uma vida de sacrifício nem dando que o tempo passa por elas. Seja como for, o texto é um texto muito forte (e muito bonito).
Parabéns, é o que lhe posso dizer.
Um abraço.
Olá, UJM!
ResponderEliminarEste texto não me representa, mas representa muitas mulheres, a intenção é fazer pequenos retratos mostrando que a violência sobre as mulheres tem muitas formas.
Beijinhos
Uffff.... Ainda bem. Temi.
ResponderEliminarMas, de qualquer maneira, o que não falta são mulheres que são representadas por essas suas belas e fortes palavras.
Obrigada, eu sou mais uma eterna revoltada...
ResponderEliminarAbraço
Revi-me neste texto...felizmente tudo já passou, mas há uns anos atrás era assim que me sentia, felizmente consegui libertar-me. Os cabelos brancos estão cá, mas periodicamente são pintados, a alma, essa, está completamente renovada.
ResponderEliminarBeijos
Manu
Olá, Manu!
ResponderEliminarDeve haver poucas mulheres que num ou noutro momento das suas vidas não tenham sentido a frustração de viver apenas para os outros, no entanto há quem consiga fazer essa mudança no principio do seu percurso, outras há que o fazem mais tarde, muitas vezes à custa de muito sofrimento e há aquelas que se resignam...fico contente que tenhas tido a coragem de te libertares desse fardo. Nunca é tarde para mudarmos.
Beijos
Coragem, Alice!!!
ResponderEliminarTem um blog lindo. Tenho a certeza que também é linda.
As rugas e os cabelos brancos nada influenciam a beleza. Pelo contrário, são sinónimo de maturidade, ponderação e outros atributos bem mais interessantes que o exterior que o espelho nos mostra.
Esse não é a verdadeira essência de cada um de nós.
Se me permite um conselho, penso que o yoga a iria ajudar. É bom para todas as idades e, com rigor e bem orientado, faz maravilhas!
Bjs
Numa de Letra, agradeço sinceramente as suas palavras, mas o que aqui escrevi não é a minha descrição de vida, apenas tento retratar vidas, não o descrevi como conto porque afinal isto é uma realidade.
ResponderEliminarConcordo consigo sobre o Yoga, no entanto nunca o experimentei, talvez um dia...
Beijinhos
Fico feliz e aliviada por saber!
ResponderEliminarSe tivesse lido os comentários anteriores já o tinha sabido antes, no entanto as minhas palavras poder-se-ão aplicar a todas as mulheres que se identificarem com o texto.