Já me perdi no tempo. Meus cabelos ficaram brancos e baços. Já brinquei com bonecas. Dei gargalhadas cristalinas. O tempo passou, e eu azedei. Criei nata, como um leite esquecido, coalhei. E o bolor veio, entranhando-se-me nos ossos. Quero inverter isto, quero que a pele se alise, que os músculos voltem à sua rigidez original. Não posso, o tempo não me deixa. No entanto, a criança que brincou com bonecas, ainda mora em mim. Está no entanto escondida, tem medo de ser redescoberta, tem medo dos outros - não avança. Tento ir buscá-la. Recordo os laços azuis, e os folhos de seda. Lembro-me daquele véu que me cobria o cabelo, quando ia à missa dominical. Dos cachos de caracóis, feitos ao pormenor, que me adornavam os ombros. Dos vestidos leves. Da água de colónia. Do pó de arroz. Do cheiro dos bolos de canela. Do avental branco, e daquelas mãos sapudas que me abraçavam, quando eu precisava.
Alice Alfazema
Sentimos saudades de bonecas ainda que os nossos cabelos não tenham perdido totalmente a cor.
ResponderEliminarBasta olhar com atenção a mãe, a avó ou mesmo a vizinha(o) que caminha com passo arrastado.
Porque...
O tempo corre veloz e reflecte imagens do que fomos e do que seremos, não tarda.
Mas por dentro...
- Serei, sempre, aquilo que sonhar.
Ousemos!
Tão bonito.
ResponderEliminar(E cabelos brancos...? Não acredito. Azedou? Muito menos. Olho para si, Alice Alfazema e é uma mulher muito jovem que vejo. Estou a ver mal? Não acredito.)
Tenho alguns cabelos brancos. :)
ResponderEliminarMas, nunca deixarei morrer a criança que há em mim, apeteceu-me escrever sobre isto...
A mensagem é mesmo essa - ouse e não tenha medo!
ResponderEliminarEu também tenho cabelos brancos e tenho muitas saudades do que dsecreveu no seu texto.
ResponderEliminarAbraço
O que é verdadeiramente importante, nesta nossa caminhada, é não desprezarmos a criança que há em nós. Se tem saudades é porque foram tempos felizes. É bom podermos guardar as recordações nos nossos corações - isso são saudades.
ResponderEliminarAbraço
Belo texto!
ResponderEliminarNunca nos devemos esquecer das bonecas que tivemos.
Nem das brincadeiras dos tempos de criança. Não esquecer isso é deveras bom sinal.
Mete-me impressão saber que há quem não se lembra da infância e até evita falar nela.