Produtos de Portugal (17)

Fado - Candidato a Património Imaterial da Humanidade


 


 



 


Candidatura do Fado a Património da Humanidade seleccionada para avaliação na 6ª reunião do Comité Intergovernamental que decorrerá de 22 a 29 de Novembro em Bali, Indonésia. A Candidatura do Fado integra o lote das 49 candidaturas seleccionadas para eventual inscrição na Lista Representativa do Património Cultural Imaterial da Humanidade.


 


No documento de apreciação global relativo às várias candidaturas, que o organismo responsável pela selecção e avaliação prévia agora apresenta, pode verificar-se que das 49 candidaturas seleccionadas para avaliação no ano de 2011, apenas 17 têm recomendação positiva para integração na Lista, sendo que 26, segundo este organismo, carecem de informação suplementar e 5 foram alvo de um parecer desfavorável à sua integração na Lista.


 


Merecendo uma recomendação favorável, a Candidatura do Fado é distinguida pela UNESCO como exemplo de boas práticas, a ser seguido por outros Estados Membros que queiram apresentar uma candidatura ao mesmo programa.


 


Apresentada pela Câmara Municipal de Lisboa através da EGEAC/MUSEU DO FADO no mês de Junho de 2010 a candidatura do Fado é agora distinguida num grupo restrito de 7 candidaturas consideradas “exemplares” pela UNESCO,  do ponto de vista da sua concepção, preparação, apresentação e argumentação.


 


A deliberação oficial sobre o Fado será conhecida nos dias 26 e 27 de Novembro na reunião do Comité Intergovernamental. Assinalando a data, o Museu do Fado, casa-mãe da candidatura está aberto ininterruptamente todo o fim-de-semana.


 


 





História do Fado

 

Nascido nos contextos populares da Lisboa oitocentista, o Fado encontrava-se presente nos momentos de convívio e lazer. Manifestando-se de forma espontânea, a sua execução decorria dentro ou fora de portas, nas hortas, nas esperas de touros, nos retiros, nas ruas e vielas, nas tabernas, cafés de camareiras e casas de meia-porta. Evocando temas de emergência urbana, cantando a narrativa do quotidiano, o fado encontra-se, numa primeira fase, vincadamente associado a contextos sociais pautados pela marginalidade e transgressão, em ambientes frequentados por prostitutas, faias, marujos, boleeiros e marialvas. Muitas vezes surpreendidos na prisão, os seus actores, os cantadores, são descritos na figura do faia, tipo fadista, rufião de voz áspera e roufenha, ostentando tatuagens, hábil no manejo da navalha de ponta e mola, recorrendo à gíria e ao calão. Esta associação do fado às esferas mais marginais da sociedade ditar-lhe-ia uma vincada rejeição pela parte da intelectualidade portuguesa.

 


A partir das primeiras décadas do século XX o fado conhece uma gradual divulgação e consagração popular, através da publicação de periódicos que se consagram ao tema, e da consolidação de novos espaços performativos numa vasta rede de recintos que, numa perspectiva comercial, passava agora a incorporar o Fado na sua programação, fixando elencos privativos que muitas vezes se constituíam em embaixadas ou grupos artísticos para efeitos de digressão. Paralelamente, sedimentava-se a relação do Fado com os palcos teatrais, multiplicando-se as actuações de intérpretes de fado nos quadros musicais da Revista ou das operetas. 

 


Gradualmente, tenderia a ritualizar -se a audição de fados numa casa de fados, locais que iriam sobretudo concentrar-se nos bairros históricos da cidade, com maior incidência no Bairro Alto, sobretudo a partir dos anos 30. Estas transformações na produção do fado irão necessariamente afastá-lo do campo do improviso, perdendo-se alguma da diversidade dos seus contextos performativos de origem e, por outro lado, obrigar à especialização de intérpretes, autores e músicos. Paralelamente, as gravações discográficas e radiofónicas propunham uma triagem de vozes e práticas interpretativas que se impunham como modelos a seguir, limitando o domínio do improviso.

 


Se a simplicidade da estrutura melódica do Fado valoriza a interpretação da voz, ela sublima também os repertórios cantados. Com forte pendor evocativo, a poesia do fado apela à comunhão entre intérprete, músicos e ouvinte. Em quadras ou quadras glosadas, quintilhas, sextilhas, decassílabos e alexandrinos, esta poesia popular evoca os temas ligados ao amor, à sorte e ao destino individual, à narrativa do quotidiano da cidade. Sensível às injustiças sociais, revestiu-se inúmeras vezes, de um vincado carácter de intervenção. 

 


A revolução de Abril de 1974 veio instaurar um Estado democrático em Portugal, fundado no pressuposto da integração das liberdades públicas, no respeito e garantia dos direitos individuais, com a inerente abertura, aos cidadãos, de uma mais activa participação cívica, política e social. Progressivamente, ao longo das décadas seguintes, far-se-ão sentir as influências da cultura de massas, próprias de uma sociedade da era da globalização, contexto que modificará a relação do fado com o mercado português, que se concentra agora na música popular de carácter interventivo absorvendo, simultaneamente, muitas das formas musicais criadas no estrangeiro.  

 


Excertos do texto:

Pereira, Sara (2008), “Circuito Museológico”, in Museu do Fado 1998-2008, Lisboa: EGEAC/Museu do Fado. 

 

 


Ver mais em: Museu do Fado

 

Ver e ouvir: Videos de Fado








 

 


“O património cultural imaterial, transmitido de geração em geração, é permanentemente recriado pelas comunidades e grupos em função do seu meio, da sua interacção com a natureza e a sua história, proporcionando-lhes um sentimento de identidade e de continuidade, contribuindo assim para promover o respeito pela diversidade cultural e a criatividade humana”


 


Convenção para a Salvaguarda do Património Imaterial da Humanidade, UNESCO, 2003 (Artº 2, alínea 1)


 


 


 


 


 


 


Alice Alfazema

Comentários