Sociedade

 


Mudam-se os cenários, as vestes, os dizeres, mas, o conteúdo e a mensagem, continua num ciclo interminável e vicioso.


 


 


"A cozinheira e as duas criadas, a de dentro e a de fora, fizeram a vénia e alinharam-se a um lado, à espera de ordens, mas o Senhor Formigal, que usava pêra e bigode, branquíssimos como o cabelo, viera só para observar (por gentileza, não que fosse ele médico ou enfermeiro) o joelho que eu havia escalavrado na Avenida Casal Ribeiro. Olhou-me com ar condescendente, protector, e perguntou: «Então, feriste a rótula?» Nunca mais me esqueci da frase. O que eu tinha ferido não era a rótula, mas o joelho, porém, ele devia ter pensado que esta palavra era demasiado vulgar, indigna da sua pessoa. Baixei os olhos para o maltratado engonço, e só fui capaz de dizer:« Sim Senhor.» Fez-me uma festa na cara e foi-se embora, levando atrás de si a Dona Albertina. A tia Maria Natália impava de orgulho, a cozinheira e a criada de fora olhavam-me como de uma auréola celestial rodeasse a minha cabeça, como se no insignificante sobrinho da criada  de dentro tivessem desabrochado de repente méritos e valores até aí desconhecidos, mas que a mão cuidada e branca do Senhor Formigal, ao roçar-me de leve a face e o cabelo cortado curto, obrigara finalmente a florescer."


 


 


in, As Pequenas Memórias, José Saramago

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