Soberba


 


Pintura de Kasia Wrona


 


 


No meio da cinza tépida tinha ficado um tição ainda aceso. Lenta e moderadamente ia consumindo as suas energias, alimentando-se do mínimo indispensável para não morrer.


Mas chegou a hora de pôr a sopa ao lume e a fogueira foi avivada com nova lenha. Um fósforo com a sua pequena chama ressuscitou o tição que parecia já apagado e uma língua de fogo deslizou entre a lenha sobre a qual tinham pendurado o caldeirão.


O fogo, alegrado com troncos bem secos que lhe tinham posto em cima, começou a levantar-se expulsando o ar adormecido entre as achas. Brincando com a nova lenha e divertindo-se a correr para cima e para baixo cada vez se alargava mais.


Algumas línguas do fogo começaram, então, a despontar fora da lenha abrindo entre ela pequenos espaços a partir donde ele lançava punhados de faíscas cintilantes; as trevas  que invadiam a cozinha desapareceram. Entretanto, cada vez mais alegres, as chamas cresciam brincando com o ar circundante e começaram a cantar com um crepitar doce e suave.


O fogo, vendo-se já tão crescido acima da lenha, mudou de ânimo; de manso e tranquilo quase sempre transformou-se em soberbo, crendo ser ele que atraía sobre os madeiros o dom da chama.


Pôs-se a soprar, a encher de explosões e chispas a cozinha; dirigiu a sua fumarada enorme para cima decidido a partir dali num voo sublime... e acabou por chocar contra a base negra do caldeirão.


 


 


Leonardo Da Vinci

Comentários

  1. Alice, ao ler o comentário que deixou no "Caminhos" dei por falta do link para o seu blog. já está corrigida a falha.
    As minhas desculpas e obrigada pela sua visita e comentário.
    Este seu espaço, tão agradável, é um lugar de reflexão e de paz que sigo há bastante tempo. Tento corrigir o defeito de raramente comentar os lugares que visito mas, até à data, os resultados são fracos. Mas sei que hei-de melhorar.
    Obrigada uma vez mais

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