- Que vai ser hoje, ti Zé? - perguntou um dos vendedores, com carinho.
- Queria um pãozinho saloio, macio.
- Aqui o tem. Não poderia estar melhor.
- Minha senhora, vai uma frutinha fresca... - gritava, para Ana, uma vendedora.
- Escolha-me um cachinho de uvas. São boas?
- À confiança, minha senhora. O ti Zé é nosso cliente há muitos anos... não o deixaria ficar mal visto.
A felicidade estampada no rosto daquela mulher simples não pôde deixar de contagiar e impressionar a Ana, que se sentia também feliz, por confirmar a amizade que nutriam pelo amigo.
- O Zé é muito querido por estes lados... - mais uma vez, sem que se apercebesse, exteriorizava um julgamento!
- É verdade. Vou comprando por aqui algumas coisinhas... e sempre se acaba fazendo amizades.
- De facto. Todos parecem felizes por o ver...
Com aquele jeito humilde que o caracteriza (cabeça ligeiramente inclinada para a esquerda, testa levemente franzida e olhos baixos), o Zé observou:
- Por vezes, procuramos a amizade entre as pessoas erradas; junto à sofisticação, quando na verdade, ela se encontra ali mesmo ao lado, entre pessoas simples que nada esperam em troca, a não ser um cumprimento digno, uma palavra amiga, sem sofismas.
in, O caroço da manga, Augusto Carlos
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