
Pintura de Mário Tendinha
O Sekulu Luíji contava estórias
e no forno de barro assava leitões
para ganhar alguns magros tostões
era o melhor assador das redondezas.
As estórias do Sekulu Luíji
eram poemas encantados
que nenhum poeta consagrado
haverá algum dia de escrever.
O Sekulu Luíji contava estórias
e no forno de barro assava leitões
para ganhar alguns magros tostões.
As suas estórias eram encantos
que nem todos sabiam escutar...
era o melhor contador de estórias
das redondezas: – Ólusapò wá...
ólusapò wá kandimba kwénda hósi...
Um dia o Sekulu Luíji desapareceu.
O Sol e a Lua somaram os dias...
e o Sekulu Luíji não mais voltou
(nunca mais haveria de voltar).
E as estórias só desapareceram
contadas na boca do Sekulu Luíji.
As estórias, o cerne e alma delas,
ficaram retidas, porém, na ventania,
voz oral do vento que nem muloje
consegue fazer calar no feitiço.
– Xé mano, sente só, Sekulu Luíji
desapareceu. Foi karkamano
foi karkamano que pegou
foi karkamano que matou
Sekulu Luíji – aiuê, aiuê, Suku yanguê!
Murmurava o povo no cicio da brisa medrosa.
O Sekulu Luíji nunca mais voltou
nunca, nunca mais... nunca mesmo.
Mas à noite, nos meus sonhos,
quando volto de novo a ser candengue,
Sekulu Luíji vem contar-me estórias
e ri muito, um riso muito cheio de vida,
um riso a fazer bailar o ouro das estrelas
como no tempo em que me ensinava,
na mangonha das tardes, a xingar em umbundu
sob o olhar reprovador e muxoxo censura
dos kotas e outros sekulus sisudos.
E nos meus sonhos, quando ele ri muito,
muito de fazer bailar o ouro das estrelas,
a sua boca solta-se no algodão todo sorriso de marfim.
Ele é um anjo negro na plumagem alada do brilho
a reluzir, a brilhar uma luz tão intensa e tão forte
que a noite do sono se transforma num dia de sol.
As estórias que ele me conta nos meus sonhos
transformo-as eu, depois, em versos e poemas acontecidos
no cetim onírico da poesia que timidamente faço acontecer.
Mas são pobres os poemas acontecidos perante as cores
e missangas, riquezas e silêncios, gestos e momentos
que o meu mestre tão sabiamente sabe criar e contar
na boca sem escrita das bikuatas do verbo e do vento...
Namibiano Ferreira
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