Que parva que eu fui

Assunto  de que se fala: hino da "geração parva"


 


 Na minha história eu poria o verbo no passado e diria:


 


Que parva que eu fui,


Começar a trabalhar antes dos quinze anos,


não viver a adolescência,


para ajudar os pais,


por uma ninharia...


levantar-me às 5h, viajar em dois transportes


e trabalhar nove horas diárias,


numa linha de produção...


 


Fazer greves e lutas laborais


para que o horário fosse reduzido


para que licença de maternidade


fosse uma realidade


para que a hora da mama


chegasse a ser verdade,


para que existisse


subsídio de refeição,


de férias e de Natal,


para que outras leis se tornassem uma realidade


tais como o direito ao estudo,


que parva que eu fui...


 


Se soubesse que esta geração


valor não lhe atribuí,


tinha ficado no meu canto,


esperando acontecer,


esmolando


me vitimizando


sentindo pena de mim


que parva que eu fui...


 


Os tempos que correm são difíceis,


nunca o foram fáceis,


a ninharia é a mesma,


que parva que eu fui...


podia ter ficado mais tempo na casa dos pais,


ter trabalhado menos,


não me ter sacrificado pelos filhos,


arranjava antes um cão...


punha as culpas nos outros,


e pensava antes na aparência


no casaco, no carro,


no perfume...


que parva que eu fui...


 


Agora não posso voltar atrás,


numa próxima encarnação...Quem sabe?


 


Alice A.

Comentários

  1. Quando se escutam lamentos de barriga cheia, carro com depósito atestado e o "rabo" sentado frente à TV.
    Possibilidade de assistir a concertos...
    Apetece barafustar, ser do contra e também fazer coro: Que parvos nós fomos!

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  2. Da geração mais envelhecida da Europa que vive miseravelmente no centro das grandes cidades à geração "à rasca", dos 500 euros, que vive em casa dos pais; da geração da 4ª classe à geração das múltiplas licenciaturas; da geração da verdadeira música de intervenção de personagens como Zeca Afonso e Adriano Correia de Oliveira à "geração parva", dos Deolinda, que nunca se mobilizou para nada a não ser para o comodismo cívico e político. Pela primeira vez nas vossas vidas, berrem, revoltem-se, exerçam o direito de cidadania, mas façam-no por todas as gerações, pelos excluídos, por aqueles que não têm um canudo, pelos desempregados, pelos trabalhadores precários e os explorados pelo patronato.

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  3. "Até a viagem mais longa começa no primeiro passo."

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